Por Chiara Lombardi — Na confluência entre palco e mesa surge uma proposta que é, ao mesmo tempo, espetáculo e ritual: Osteria Giacobazzi, o novo show de Giuseppe Giacobazzi, nasce como um convite a recobrar a intimidade perdida do encontro presencial. Apresentado na ChorusLife Arena, o formato desloca a plateia para cima do palco, onde os espectadores‑avventori são servidos com ângulos de afeto: fatias de frios, piada, pães, salgadinhos e um doce final, tudo regado por vinho ou água, como em uma verdadeira osteria.
Giacobazzi — nome artístico de Andrea Sasdelli — chega ao espetáculo com o avental do anfitrião, um gesto que remete não só à tradição italiana do acolhimento, mas à ideia do teatro como espaço de comunhão. O personagem nasceu nos anos 1980, na Rádio Studio Elle de Lavezzola, e ganhou o grande público a partir do palco de Zelig. Ao lado de sua histórica spalla, Andrea Vasumi, ele monta uma cena onde se derrubam «não só a quarta parede, mas todas as outras».
O método é simples e afetuoso: os participantes no palco são escolhidos aleatoriamente, convidados a sentar e a compartilhar, sem a pressão de serem performers. A proposta busca evitar o constrangimento — não se trata de transformar o público em alvo de piadas, mas em copartícipe de histórias, canções e pequenas performances. Haverá também uma versão lúdica do talent show — batizada de “Osteria’s got talent” — em que quem quiser pode subir ao microfone, contar uma anedota ou executar um número. Como lembrança, os participantes recebem um chapéu do espetáculo.
Tematicamente, o espetáculo é uma reflexão nostálgica sobre a época em que Giacobazzi cresceu: a Bologna do fim dos anos 1970 e dos anos 1980, cenário de efervescência cultural e encontros presenciais. Ele, que tem 62 anos, descreve aquele período como um tempo de inovação, inclusão e troca — um clima que o palco‑osteria pretende evocar com ironia, evitando o risco do sentimentalismo barato. Mas a nostalgia é usada como lente crítica: a invasão dos social media deslocou as formas do encontro e amplificou a importância da imagem em detrimento da conversa.
Giacobazzi declara usar as redes apenas para trabalho. Para ele, a “partilha do alimento” continua sendo um rito quase religioso, uma forma de editar a memória coletiva sem filtros. A escolha de servir comida durante o show não é um mero artifício: é um reframe do teatro como espaço de pertença — um espelho do nosso tempo que nos recorda o valor das narrativas orais e do corpo presente à mesa.
Com humor e precisão de cronista, o comediante recusa a ideia de que cair em um saudosismo absoluto seja a solução. A ironia salva o espetáculo da melancolia, transformando a saudade em motor para pensar o presente — numa espécie de roteiro inverso que nos convida a repensar como nos encontramos hoje. E, sobre a pergunta recorrente: Sanremo? “Mai, non mi si addice”, responde, rompendo com a fantasia do palco televisivo e reafirmando seu compromisso com um teatro que respira convivialidade.
Em tempos de timelines curtas e likes que substituem olhares, Osteria Giacobazzi propõe uma experiência que é ao mesmo tempo performática e humana — um eco cultural que nos lembra que a maior parte das histórias guarda sentido quando contada ao redor de uma mesa.






















