O fornecimento gratuito de preservativos com o logo olímpico no Villaggio olimpico de Cortina d’Ampezzo esgotou-se antes mesmo da metade dos jogos de Milano Cortina 2026, segundo apurou o diário La Stampa. A notícia, aparentemente simples, traz à tona problemas de logística, prioridades de organização e políticas de saúde pública que acompanham grandes eventos esportivos.
Foram disponibilizadas várias milhares de unidades destinadas aos cerca de 2.900 atletas inscritos para competir em 2026. No entanto, fontes anônimas ouvidas pela imprensa local indicam que as estoques terminaram em poucos dias. Um atleta, que preferiu não se identificar, relatou: “As reservas acabaram em apenas três dias. Disseram que vão enviar mais, mas ninguém sabe quando.”
Hoje é prática consolidada — tanto em Jogos de Verão quanto de Inverno — oferecer preservativos nos alojamentos dos atletas. A iniciativa remonta aos Jogos de Seul, em 1988, quando a distribuição passou a integrar as medidas de saúde preventiva em eventos desse porte. Em Paris 2024, reportagens indicaram a distribuição de aproximadamente 300.000 unidades, elevando o tema à dimensão de política pública e logística de massa.
O esgotamento em Cortina revela duas faces do fenômeno. Primeiro, aponta para a escala humana e social desses eventos: atletas chegam de contextos culturais e geográficos diversos, e o consumo de preservativos é, em parte, reflexo dessas dinâmicas. Segundo, expõe a capacidade organizacional — ou a falta dela — para prever demanda e garantir reposição rápida de itens básicos de saúde.
Como analista, observo que a questão não se reduz a um incidente isolado. A distribuição de preservativos faz parte de um conjunto maior de serviços aos atletas — desde alimentação e transportes até assistência médica e psicológica. Quando falhas ocorrem num ponto tão simbólico, toda a cadeia logística precisa ser revisitada: contratos com fornecedores, estoques estratégicos, canais de reposição e comunicação transparente com os residentes do vilarejo olímpico.
Há, ainda, uma dimensão simbólica que não deve ser desconsiderada. Estádios e vilas olímpicas são espaços que articulam saúde pública, imagem institucional e responsabilidade coletiva. O esgotamento precoce de um item tão direcionado à prevenção envia uma mensagem desconectada daquilo que os Comitês Organizadores costumam afirmar: compromisso com o bem-estar integral dos atletas.
Resta acompanhar se a organização de Milano Cortina confirmará o reabastecimento e em que prazo. Enquanto isso, o episódio serve como lembrete prático: planejar grandes eventos esportivos exige atenção a detalhes que, embora cotidianos, têm impacto direto na experiência e na saúde de quem representa o esporte em sua dimensão mais humana.






















