Por Stella Ferrari — A inovação italiana Green-Track inaugura hoje uma nova fase na gestão de embalagens: dar a cada produto uma identidade digital permanente que acompanha sua vida útil e o torna um ativo econômico mensurável. A tecnologia permite que o próprio recipiente apresente, automaticamente, sua “carta de identidade” aos centros de recuperação — indicando origem, composição química e grau de pureza — possibilitando uma seleção praticamente perfeita sem necessidade de etiquetas, chips ou tags externos.
O diferencial técnico é uma marcação estrutural integrada ao processo industrial, que não contamina o material nem se desprende durante o ciclo de uso e descarte. Na prática, o próprio imbalagem converge para um suporte de informação, eliminando custos e riscos associados a dispositivos aderidos. Em termos macroeconômicos, isso significa transformar um passivo — o resíduo anônimo — em um ativo rastreável, revertendo a lógica do “quem polui paga” para um modelo onde a premialidade direta incentiva o comportamento correto do consumidor e melhora a eficiência industrial.
A proposta nasceu da intuição do engenheiro e professor siciliano Rosario Melissa, que, observando recipientes descartados no litoral, questionou por que bens produzidos sob rigorosos controles industriais se tornam anônimos ao virar lixo. Partindo desse ponto, Green-Track preenche o que Melissa define como o “ponto cego” da economia circular — o momento em que as informações sobre o produto se perdem entre o consumo e o centro de recuperação.
O sistema introduz uma rastreabilidade certificada ao longo de todo o ciclo de vida da embalagem — produção, consumo e pós-consumo — permitindo que centros de triagem reconheçam e verifiquem cada item mesmo após o uso. O ganho operacional é imediato: maior qualidade do material reciclado, redução da contaminação cruzada e otimização das cadeias de coleta, com reflexos positivos na capacidade de cumprimento das metas do novo Regulamento Europeu sobre embalagens (PPWR).
Do ponto de vista de política e mercado, Green-Track é uma alavanca de valor. A rastreabilidade deixa de ser um custo regulatório imposto e passa a ser componente da cadeia de valor, redistribuindo ganhos entre consumidor, indústria e meio ambiente. Em termos práticos, o modelo prevê um sistema de incentivos onde o consumidor, voluntariamente, pode associar sua identidade ao produto para acessar benefícios financeiros — sempre mantendo a possibilidade de anonimato para proteger dados pessoais.
Como estrategista, vejo Green-Track como uma calibragem fina no motor da economia circular: reduz atritos no fluxo de materiais, melhora a previsibilidade da oferta de reciclados qualificados e diminui a necessidade de freios fiscais ou subsídios permanentes para viabilizar o mercado de reciclados. Para operadores industriais, é um redesign de processos que coloca a rastreabilidade nas linhas de produção sem comprometer eficiência; para reguladores, é uma ferramenta que facilita a medição e a certificação do fim de vida dos produtos.
Em resumo, Green-Track não é apenas uma solução tecnológica: é um redesenho econômico que transforma resíduos em instrumentos de valor, alinhando incentivos privados com objetivos públicos. Assim como em uma máquina de alta performance, a correta integração entre componentes — projeto, produção, coleta e recuperação — é o que garante aceleração sustentável e retorno ao sistema.






















