Marco Rubio, secretário de Estado dos Estados Unidos, ofereceu nesta edição da Conferência de Segurança de Munique uma mensagem de conciliação que visa redesenhar as linhas de força entre Washington e Bruxelas. Em um discurso calculado, recebido com alívio visível pelas delegações europeias, Rubio estendeu a mão aos aliados e propôs a construção conjunta de um novo século ocidental.
Do mesmo púlpito que, há um ano, abrigou a crítica afiada do então vice‑presidente JD Vance contra parceiros europeus, Rubio adotou um tom distinto: menos confronto, mais reparação estratégica. Reconheceu as divergências recentes, mas enfatizou que as duas margens do Atlântico partilham um destino comum — uma civilização ocidental que é, ao mesmo tempo, cultural, espiritual, econômica e militar.
Em termos concretos, o secretário de Estado não deixou de reiterar objeções a políticas comunitárias que, na sua visão, minam a resiliência europeia: criticou a agenda energética da União Europeia como um “culto do clima imposto às populações” e apontou a crise migratória em massa como uma ameaça ao “tecido social, à cultura e à civilização” europeias. Ainda assim, a sua crítica foi enquadrada como um diagnóstico partilhado e não apenas como censura externa — uma admissão de que “caímos juntos na mesma ilusão” após a queda da URSS, na qual se acreditou que a democracia liberal triunfaria de forma irreversível.
Rubio voltou a sublinhar a dinâmica da desindustrialização europeia, qualificando‑a como uma escolha política que acabou por favorecer uma China que, apesar de adversária em alguns domínios, deve ser objeto de diálogo calibrado. Esse reconhecimento de complexidade revela uma leitura de tabuleiro: não se trata de um posicionamento de ruptura, mas de um reposicionamento estratégico para preservar a vantagem ocidental no longo prazo.
Ao citar um amplo painel de referências históricas — entre elas figuras europeias emblemáticas desde Cristóvão Colombo — Rubio quis lembrar que o vínculo transatlântico transcende interesses conjunturais. Foi também explícito ao concordar com o chanceler alemão Friedrich Merz: os Estados Unidos não desejam uma Europa frágil, pois uma Europa enfraquecida diminui a capacidade americana de projetar poder e de manter a estabilidade global.
O apelo por aliados mais fortes e orgulhosos ressoa como um movimento de xadrez: fortalecer as peças amigas para evitar que adversários ponham à prova a defesa coletiva. Rubio pediu que a Europa supere “a vergonha e o medo” — do clima, da guerra — e retome a capacidade de defesa própria, de modo que nenhum rival se sinta tentado a desafiar o compromisso transatlântico.
O ponto alto simbólico do discurso ocorreu quando Rubio mencionou o contributo das forças europeias no Afeganistão — um gesto que, depois do episódio do tweet de Trump que havia minimizado esses sacrifícios, provocou uma ovação de pé na plateia. A cena serviu tanto para reconfortar audiências europeias quanto para posicionar Rubio como interlocutor credível em Washington, capaz de reparar fraturas e de articular uma agenda comum.
Em síntese, o secretariado de Rubio em Munique foi uma tentativa deliberada de transformar tensão em plataforma de cooperação: reafirmar o carácter indissolúvel do laço transatlântico, corrigir rumos estratégicos — sobretudo em energia e migração — e articular uma frente ocidental mais coesa face aos desafios tecnológicos e geopolíticos do presente. A sua mensagem é clara e de natureza estrutural: a aliança não está em colapso, mas exige um novo projeto de longo prazo — uma espécie de reconstrução das bases, os alicerces frágeis da diplomacia que sustentam o equilíbrio do poder ocidental.
Como analista, vejo nessa iniciativa um movimento decisivo no tabuleiro: Rubio não promete soluções triviais, mas oferece um roteiro de realpolitik — combinar diálogo com firmeza, cooperação com investimento em capacidades — para que o Ocidente mantenha relevância e coesão numa era de tectônica de poder renovada.






















