Por Chiara Lombardi — Há algo de cinematográfico na trajetória de Samurai Jay: da rua de Mugnano di Napoli aos refletores do Teatro Ariston, sua trajetória parece seguir o roteiro de um filme íntimo sobre ambição, persistência e memória coletiva. O artista, nascido Gennaro Amatore em 1998, desembarca em Sanremo 2026 com a faixa Ossessione, que ele define como o motor que move sua vida — música, amor e vontade de existir em cena.
“Sou emocionado e grato, estou pronto”, declarou ele ao anunciar sua primeira apresentação solo no festival. A canção reúne um pulso latino, algumas linhas em espanhol e uma invocação de energia: é um convite à dança e à celebração, mas sobretudo uma confissão sobre como a música ocupa um lugar obsessivo e vivificador na sua existência de compositor e intérprete.
No palco do Ariston, Samurai Jay não estará sozinho na cena: interpretará uma versão de Baila Morena, de Zucchero, acompanhado pela apresentadora e artista Belén Rodríguez e pelo produtor e trompetista Roy Paci. Essa escolha reforça o diálogo entre tradição e contemporaneidade que marca sua jornada: um artista que traz a alma de Napoli para repertórios que cruzam gêneros e públicos.
A origem do seu reconhecimento é progressiva e coerente. O primeiro sinal de fôlego foi “Promessa III”, do EP Promesse, onde uma escrita emocional se alia a sonoridades urban carregadas de melodia. Depois vieram faixas como “Sorry Mama” e “Audemars” — esta em parceria com MV Killa e Yung Snapp — que o consolidaram na nova cena napolitana. Colaborações com nomes como Geolier, Lele Blade, Shiva e Guè ampliaram seu léxico e o colocaram em diálogo com diferentes estratos do universo urban italiano.
Em 2020, o projeto Lacrime sinalizou um momento mais introspectivo e relevante na evolução artística de Samurai Jay. Mas foi com Halo que sua voz se projetou em escala maior: a canção tornou-se viral nas redes e alcançou as paradas oficiais, criando uma ponte entre uma emoção compartilhada e um público mais amplo.
Por trás do hit e da presença no festival está uma equipe criativa que reforça a ambição do projeto: Ossessione é escrita por Samurai Jay, Luca Stocco e Vittorio Coppola, coassinada por Salvatore Sellitti e produzida por Vito Salamanca e Katoo. É a prova de uma comunidade artística que trabalha para transformar uma obsessão — no sentido mais positivo possível — em forma musical.
O encantamento de Samurai Jay com Sanremo also tem um lado memorial: ele recorda a vitória dos Måneskin como um momento inspirador, um lembrete de que o festival pode ser uma câmara onde se reflete o zeitgeist musical. Em sua narrativa, a trajetória é menos sobre fama imediata e mais sobre construção: um roteiro oculto da sociedade, onde a música funciona como espelho do nosso tempo.
Em resumo, a passagem de Samurai Jay pelo Ariston é um capítulo que confirma uma ascensão pautada por cuidado estético, colaboração estratégica e uma relação quase ritual com a música. É essa mistura de devoção e leveza que promete transformar Ossessione em uma cena emblemática de 2026 — uma peça do mosaico que conecta Napoli, as redes sociais e o teatro histórico de Sanremo em uma mesma sintonia.






















