Por Marco Severini — Em um pronunciamento de alto teor belicista, o chefe do Estado‑Maior do Niger, Amadou Ibro, membro da junta que controla o país desde 2023, conclamou a população a “preparar‑se para uma guerra com a França“. A declaração, feita durante um comício em um estádio de Niamey, reforça acusações constantes da liderança militar nigerina de que Paris pretende desestabilizar o país.
O episódio insere‑se em um quadro já tenso: os últimos soldados franceses da operação Barkhane, empenhada contra o jihadismo no Sahel, deixaram o Niger no final de 2023 após um longo impasse diplomático com a junta. No discurso, Ibro procurou atribuir a Paris responsabilidades que vão além do terreno militar, afirmando, de forma contundente, que a atual situação econômica francesa teria relação com o conflito entre os dois países.
Mais grave ainda foi a acusação direta do comandante da junta, o general Aboudrahamane Tiani, que apontou o presidente francês Emmanuel Macron como “patrocinador” dos jihadistas do Estado Islâmico responsáveis pelo ataque ao aeroporto internacional de Niamey no final de janeiro. Trata‑se de uma imputação de dimensão política e simbólica que visa redesenhar as fronteiras invisíveis da narrativa sobre quem exerce influência no teatro saheliano.
Do ponto de vista francês, a resposta foi de negação e contenção: o porta‑voz do Estado‑Maior das Forças Armadas, coronel Guillaume Vernet, declarou que “um intervenção francesa no Niger está fora de questão” e qualificou as alegações como parte de uma “guerra de desinformação”. A versão oficial de Paris procura, assim, evitar uma escalada diplomática aberta, embora a retórica nigerina já tenha alterado o perfil do confronto.
Como analista, vejo este episódio como um movimento estratégico no tabuleiro regional: a junta do Niger usa a retórica beligerante para solidificar apoio interno, ao mesmo tempo em que tenta redesenhar e afirmar um novo eixo de influência na tectônica de poder do Sahel. A invocação pública de guerra funciona como um aviso e um ato performativo, destinado a projetar força e a fragilizar os alicerces da diplomacia tradicional.
As implicações são múltiplas e perigosas. Em primeiro lugar, a escalada verbal amplia o risco de confrontos indiretos por procuração, envolvendo atores regionais e internacionais que já disputam espaços de influência. Em segundo lugar, a narrativa que associa chefes de Estado estrangeiros a patrocinadores de grupos jihadistas contamina possibilidades de mediação e reduz a margem para iniciativas diplomáticas discretas. Finalmente, a atitude da junta pode ter efeitos em cadeias de apoio — militares, econômicas e políticas — que cruzam fronteiras e poderiam retroalimentar ciclos de instabilidade.
Num mundo de movimen‑tos tectônicos na geopolítica, onde cada gesto público é um lance no tabuleiro, a declaração de Ibro exige leitura prudente: não é somente uma ameaça, mas uma tentativa calculada de reconfigurar percepções e alianças. Resta saber como Paris, as capitais africanas e organizações regionais vão reagir — se com contenção estratégica ou com um contramovimento que altere definitivamente o equilíbrio local.
Marco Severini é analista sênior de geopolítica e estratégia internacional para a Espresso Italia.




















