Chiello chega a Sanremo 2026 como uma figura que desafia expectativas e polariza opiniões. Aos 26 anos, nascido Rocco Modello em Venosa (Basilicata), ele não traz ao palco um personagem fabricado, mas sim um nervo exposto — uma presença que funciona como um espelho do nosso tempo.
Originado da cena trap mais extrema e controversa, entre os FSK Satellite, com nomes como Taxi B e Sapobully, Chiello fez a transição para a carreira solo mantendo a franqueza: fragilidade declamada, dependências narradas sem verniz, imagens sombrias e uma busca sonora que mistura cantautorato, rock e urban. Essa costura entre gêneros revela um artista que reescreve o roteiro oculto da sociedade, transformando dor em forma e sentido.
Subindo pela primeira vez como protagonista ao palco do Ariston, apresenta Ti penso sempre, canção escrita por ele e composta com Tommaso Ottomano (que esteve no festival ano passado com Lucio Corsi), Saverio Cigarini, Fausto Cigarini e Matteo Pigoni. O texto canta a agonia de um amor que “não deixou nada, apenas uma estilhaça de nós dois” — um verso que ecoa como uma fotografia em negativo das relações contemporâneas.
Com Ti penso sempre, Chiello leva a Sanremo uma história em que as luzes convivem com as sombras: passado controverso e um presente em transformação, vulnerabilidade convertida em linguagem e não em pose. É um dos artistas que rejeita a ideia do “peça construída para o Festival”: se está no Ariston, é porque tem algo a dizer, mesmo que isso o divida.
“Vorrei che a Sanremo le persone mi vedessero per come sono veramente, solo questo”, afirmou — um pedido de autenticidade que soa como um manifesto contra a embalagem pop. Na noite das covers, Chiello divide o palco com Morgan em uma versão de ‘Mi sono innamorato di te’ de Luigi Tenco. Inevitavelmente, surgem perguntas sobre o receio de repetir polêmicas — a referência a Bugo ou ao histórico judicial de Morgan —, mas Chiello responde com um posicionamento artístico: “Não me interessa; eu o trouxe porque o estimo muito como artista. Para mim, o seu disco ‘Canzoni dell’appartamento’ é um dos discos lendários na música italiana”.
Seu álbum mais recente, Scarabocchi (abril de 2025), inaugura-se com um verso já manifesto: “Uno di questi giorni mi ammazzerò”. Não se trata de provocação gratuita, mas do reflexo de uma escrita que circula por temas inquietantes — autodestruição, ansiedade, internações, dependência — e os transforma em matéria narrativa. Dois anos atrás, Chiello optou pelo internamento em clínica para desintoxicação; desde então, descreve sua recuperação como um processo longo, imperfeito e contínuo. Diz ter aprendido a se aceitar, embora admita que a “ansiedade de não saber como estar no mundo” permaneça como um motor de criação.
A estética — cabelos loiros, tatuagens no rosto, uma borboleta sob o olho, aranhas e caveiras — projeta uma dureza quase desafiadora. Mas, por trás dessa imagem, reivindica timidez, lentidão e sensibilidade. “Não sou uma coisa só”, repete. Em Chiello convivem a atitude áspera da trap e uma sensibilidade que olha para o passado — para nomes como Luigi Tenco, Piero Ciampi e Gino Paoli — mais do que para o novo cantautorato contemporâneo.
O percurso solo começou em 2021 com Oceano Paradiso, seguiu com Mela marcia e desemboca agora em Scarabocchi. Em Sanremo, sua presença é menos sobre vencer prêmios e mais sobre tornar audível um fragmento do roteiro emocional que atravessa uma geração. Em termos de eco cultural, Chiello não quer somente ser ouvido: quer ser reconhecido na sua complexidade.






















