Sal Da Vinci volta a Sanremo 2026 com ‘Per sempre sì’: o neomelódico encontra a geração Z
Por Chiara Lombardi — Há artistas cuja carreira funciona como um roteiro bem escrito: curvas inesperadas, atos de queda e renascimento, e personagens secundários que, no momento certo, impulsionam a virada. É esse o mapa que traz Sal Da Vinci de volta ao Sanremo 2026, com a canção “Per sempre sì”, uma declaração de amor adulto que soa como um eco cultural entre teatro e festa popular.
Veterano de palco e filho de uma tradição teatral — seu pai é o cantor e ator napolitano Mario Da Vinci — Salvatore Michael Sorrentino nasceu em Nova York em 1969, enquanto seu pai estava em turnê. Cresceu entre cortinas e holofotes: aos sete anos já estreava no palco, em 1985 descobriu a voz solo e construiu uma discografia que se aproxima de trinta álbuns, sem contar cinema, TV e, sobretudo, o teatro, onde sedimentou uma relação íntima com o público.
O percurso inclui idas e vindas em Sanremo: sua participação anterior em competição foi em 2009 com “Non riesco a farti innamorare”, um Festival rocambolesco marcado por eliminação e repescagem, que terminou num surpreendente terceiro lugar. Em 2025 esteve como convidado na serata delle cover ao lado dos The Kolors. Agora, cinquentenário de carreira, retorna entre os Big com um tema que resgata os tons e o compasso dos neomelodici napoletani, sem perder uma assinatura contemporânea.
“Per sempre sì” é produzido por Merk & Kremont e Adriano Pennino e assinado em parceria por Sal Da Vinci, Francesco Da Vinci, Alessandro La Cava, Federica Abbate, Merk & Kremont e Eugenio Maimone. No texto, há uma celebração da promessa duradoura — e até um gesto dialetal com o verso “Sarà pe semp sì“, que liga o paladar local à universalidade do sentimento. Em suas próprias linhas, o cantor lembra que “Perché un amore non è amore per la vita se non ha affrontato la più ripida salita”: uma frase que soa como um aforismo dramático, um espelho do nosso tempo sobre compromisso e resistência.
Na serata das covers, a escolha não é casual: Sal levará ao palco uma das peças mais emblemáticas do Festival, “Cinque giorni” de Michele Zarrillo, apresentada originalmente em 1994. O encontro entre duas sensibilidades — a do intérprete neomelódico e a balada íntima de Zarrillo — promete uma performance carregada de emoção, capaz de ressoar tanto com o público que o acompanha há décadas quanto com os novos ouvintes conquistados nas redes.
Esse novo público chegou em grande parte graças a um fenômeno social: o inesperado e tardio sucesso de “Rossetto e caffè”, viral no TikTok e rapidamente adotado pela Generazione Z. A adoção digital funciona como reframe da realidade artística de Sal: o teatro e as tradições napolitanas encontram o algoritmo, e a canção torna-se ponte entre memórias familiares e hábitos de consumo cultural contemporâneos.
Mais do que um retorno formal a um palco histórico, a presença de Sal Da Vinci em Sanremo 2026 é uma pequena lição sobre como a longevidade artística se escreve: com paciência, repertório e a capacidade de transformar um repertório íntimo em um roteiro coletivo. Em cena, o artista traz a leveza e a gravidade de quem sabe que a canção popular é, antes de tudo, um artefato de memória — e que prometer para sempre é, muitas vezes, o gesto mais radical contra a efemeridade do nosso tempo.






















