Existem artistas cuja presença atravessa décadas não por nostalgia, mas porque continuam a ressoar no presente com a mesma naturalidade de outrora. Raf é um desses nomes. Sua voz surge daqueles anos 80 — sintetizadores, néons, baladas que se prendem à pele — e no entanto não soa como relíquia: soa como peça viva de um roteiro que nunca chegou ao fim, apenas mudou o enquadramento.
É nesse campo de continuidade que Raf retorna ao Sanremo 2026 com a canção “Ora e per sempre”. Não é um exercício de revival: é uma reflexão sobre o tempo do afeto — o que permanece, o que se transforma, e como se procura um presente possível dentro da própria memória. A faixa, assinada com o filho Samuele, tem caráter autobiográfico e desenha a geografia sentimental de duas pessoas que se reencontram num mundo que não é mais o mesmo em que cresceram; entre nostalgia e a vontade de voltar, por um instante, ao primeiro encontro.
Trechos do refrão musicalizam essa busca íntima: “Sei nell’anima e lì che ti cercherò quando mi mancherai / ora e per sempre sarai”. A letra não declama um passado imutável; propõe um jogo de espelhos entre lembrança e presente — cinema interno onde a cena antiga ilumina a cena atual.
Na noite das cover, Raf escolheu revisitar The Riddle de Nik Kershaw — e dividirá o palco com The Kolors. A escolha é quase uma mise-en-scène: um ícone dos anos 80 a dialogar com uma banda contemporânea que sempre bebeu dessa fonte. A versão apresentada terá o eco do arranjo que Gigi D’Agostino assinou em 1999, transformando ainda mais a canção em peça-manifesto de uma era que se reinventa.
Curiosamente, The Riddle é famosa por seu texto enigmático. Kershaw descreveu-a como uma “divagação confusa de uma popstar dos anos 80”; as palavras, compostas em poucos minutos, serviram para embalar uma ideia originalmente instrumental. O título — o enigma — e a capa inspirada em labirintos à la M.C. Escher só ampliaram o fascínio e a busca por leituras profundas onde, talvez, não houvesse intenção deliberada de mistério.
A trajetória de Raf é, ela mesma, um roteiro europeu. Nascido na Puglia, deixou o sul da Itália jovem, estudou arte e arquitetura em Florença e tocou nos clubes de Londres com os Cafè Caracas — banda que formou com Ghigo Renzulli, futuro guitarrista dos Litfiba — navegando entre punk e new wave como baixista e observador da cena. O salto que o projetou veio em meados dos anos 80 com “Self Control“, uma noite eletrônica inquieta convertida em clássico: a versão de Raf dominou as paradas italianas e europeias, enquanto a interpretação de Laura Branigan fez do tema um sucesso global.
No primeiro Sanremo em que participou como autor, Raf assinou “Si può dare di più”, hit de Tozzi, Morandi e Ruggeri que venceu o festival — um capítulo que o liga ao palco maior da canção italiana não apenas como intérprete, mas como parte viva da produção cultural do país.
O retorno de Raf ao Sanremo 2026 é, por isso, mais do que um revival elegante: é uma pequena lição sobre como um eco dos anos 80 pode continuar a tocar se souber transformar-se. É o som de quem não insiste em repetir um único tom, mas prefere revelar as camadas que a própria história deixou como pista para o presente. Em tempos de formatos descartáveis, esse tipo de continuidade funciona como um espelho do nosso tempo — e Raf, hoje como ontem, ainda vibra.






















