Um cacho de espuma que parece artelho, uma sinfonia em branco e azul, a crista congelada no instante em que se despeja — assim se revela La Grande Onda de Kanagawa, de Hokusai (1760-1849), imagem que funciona hoje como um espelho do nosso tempo: réplica consumida, ícone massificado, símbolo que atravessou suportes e gerações. Ao fundo, erguendo-se como um totem, o Monte Fuji, presente nas lendas como promessa de imortalidade e, nas pranchas de Hokusai, como um ponto fixo na mobilidade do mundo.
Hokusai foi, como todo grande autor do seu próprio roteiro, contraditório. Casou-se duas vezes, teve seis filhos, mudou de endereço — dizem as biografias — mais de noventa vezes e adotou vários nomes ao longo da vida. Viveu altos e baixos que lembram o próprio movimento de onda: subidas brilhantes e quedas brutais, inclusive até a pobreza extrema em seus últimos anos. Foi gravador, ilustrador, autor de contos policiais, de obras para crianças, de adaptações dos clássicos e dos primórdios do que hoje chamaríamos de manga. Trabalhou como entregador para uma biblioteca ambulante e compôs haikais cujo corte seco diz muito sobre sua visão do mundo.
No prefácio das suas Cento Vedute do Monte Fuji — na célebre sequência que lhe valeu o apelido de “velho louco pela pintura” —, Hokusai deixou uma declaração que parece escrita como um roteiro de ambição infinita: aos sessenta e seis anos admitia ter começado a publicar com frequência, aos setenta sentiu que havia tocado a essência das formas; projetou que aos oitenta avançaria, aos noventa aprofundaria, aos cem talvez atingisse o divino. Morreu com 89 anos; muitos de seus trabalhos desapareceram em um incêndio no ateliê, lembrando que a materialidade da obra é sempre frágil frente à narrativa que ela assume.
Agora, cerca de duzentas obras chegam a Palazzo Bonaparte, em Roma, para a exposição dedicada ao “Grande Mestre da arte japonesa”, que abre em 27 de março. A mostra, organizada por Arthemisia, é curada por Beata Romanowicz e promovida por Federico Mollicone, presidente da comissão de Cultura da Câmara, com a colaboração do Museu Nacional de Cracóvia, que pela primeira vez empresta à Itália tesouros dessa colecção asiática.
São peças que documentam não apenas a habilidade técnica de Hokusai, mas também o papel transformador da arte japonesa no xadrez cultural europeu: inspirou Van Gogh, Gauguin, Degas, Renoir, Klimt e até Debussy. A exposição promete oferecer mais do que imagens bonitas: é um convite a ler o roteiro oculto que liga tradição, modernidade e as trocas entre Ocidente e Oriente — uma espécie de reframe da realidade onde cada prancha funciona como um pequeno cinema de articulações sociais e estéticas.
Visitar essa mostra é apropriar-se de um fragmento da ambição de um artista que sonhava com a eternidade de uma linha. É também observar como um país, o Sol Nascente, soube absorver e traduzir influências sem perder o próprio pulso: as obras trazem à tona a semiótica do viral cultural — imagens que se tornam ícones e atravessam fronteiras.
Em Roma, portanto, não será apenas Hokusai no centro; será a história do encontro entre memórias, imagens e desejos humanos, apresentada como um roteiro que nos convida a olhar para além da superfície — a escutar o que a onda e o monte, juntos, têm a nos dizer.





















