Por Chiara Lombardi — Em cena como se o palco fosse um espelho do nosso tempo, Patty Pravo não volta: ela persiste. A cantora atravessa décadas com a segurança de quem não revisita o passado por nostalgia, mas por necessidade artística. Cada entrada sua no Festival de Sanremo funciona como um reframe da própria história musical italiana, um roteiro em que a personagem principal se reinventa sem perder a sua potência simbólica.
Com mais de 120 milhões de discos vendidos, uma voz baixa e magnética e um imaginário forjado entre elegância, risco e metamorfose, Nicoletta Strambelli construiu uma carreira que desafia rótulos e calendários. Do beat do Piper ao pop autoral, das temporadas experimentais às ressurgências dos anos 1990 e 2000, seus figurinos icônicos e presença cênica redefiniram a noção de intérprete na música italiana — uma imagem que hoje funciona como mapa afetivo para várias gerações.
Em 2026, na sua décima primeira participação, Patty Pravo volta ao Ariston com a canção “Opera”. Não se trata de um mero gesto de retorno, mas de uma proposta estética: a música aposta num aparato clássico e numa letra que declara, quase como um manifesto, que «somos obras de arte»; e ainda que «somos santos e pecadores, navegantes e sonhadores, um pouco satélites, filósofos do nada». É uma fraseologia que opera tanto no sentido literal quanto simbólico — como se o festival servisse para colocar em foco o que permanece humano entre as ruínas e a glória.
No momento das cover, a artista presta homenagem a uma amiga recentemente desaparecida interpretando um de seus temas mais célebres em dueto com Gino Paoli. O tributo ganha um segundo nível: a canção figura entre as composições assinadas por Beppe Vessicchio, o maestro do festival que, segundo notícia, faleceu aos 69 anos no último novembro — um eco doloroso que torna a performance ainda mais carregada de memória coletiva.
Para este Sanremo, a performance conta também com a presença do primeiro bailarino da Scala, Timofej Andrijashenko, estabelecendo um diálogo entre música e corpo que relembra a velha vocação do festival como palco híbrido de entretenimento e alta cultura. A escolha sublinha a capacidade de Patty Pravo de costurar tradição e contemporaneidade sem concessões fáceis — como se cada ato fosse uma cena de cinema onde luz, movimento e voz compõem o enquadramento perfeito.
O vínculo entre Patty Pravo e Sanremo é, de fato, uma sequência de capítulos que narram transformações identitárias. Estreou no festival em 1970 com La spada nel cuore, onde já trazia uma intensidade madura; em 1984, com Per una bambola, ofereceu uma interpretação austera que lhe rendeu o Premio della Critica e uma imagem indelével. Nos anos 1990, I giorni dell’armonia (1995) e principalmente …e dimmi che non vuoi morire (1997) marcaram momentos de mudança: embora não tenha vencido a competição, conquistou crítica e público, reafirmando-se como intérprete de fôlego contemporâneo.
Nos anos 2000, sua trajetória em Sanremo é feita de pesquisas e reentradas: L’immenso (2002), E io verrò un giorno là (2009), Il vento e le rose (2011) e Cieli immensi (2016) — este último celebrado com uma ovação em pé e mais um Premio della Critica. Em 2019, o dueto com Briga em Un po’ come la vita mostrou sua disposição de dialogar com vozes mais jovens. Agora, em 2026, Opera representa mais uma etapa de um percurso que continua aberto: não um fechamento de ciclo, mas uma nova tomada de cena.
Se olharmos com a curiosidade sofisticada de um crítico que observa a cena cultural como um filme, vemos em Patty Pravo a prova de que a contemporaneidade não é apenas questão de atualizar o figurino, mas de manter uma tensão criativa que transforma a memória em presente. No final, sua presença no Ariston é menos um retorno nostálgico e mais um ato de insistência cultural — uma artista que, como toda grande obra, segue interrogando o público sobre quem somos e como contamos nossas histórias.






















