Onde se dança, onde se pensa: Dargen D’Amico em Sanremo 2026 com AI AI
Dargen D’Amico retorna ao palco do Sanremo 2026 trazendo uma canção que dialoga diretamente com a tensão contemporânea: AI AI. Depois de duas participações que reconfiguraram sua trajetória pública, o artista milanês oferece um trabalho que segue sua preocupação constante com a linguagem, o presente e a responsabilidade individual — como se cada verso fosse um pequeno espelho do nosso tempo.
O ponto de partida do novo single está ligado a um gesto quase documental: a constatação de que, na Itália, pouco se fala abertamente sobre inteligência artificial. “A ideia del brano nasce dal fatto che di IA in Italia se ne parlasse molto poco. Invece sta arrivando e bisogna affrontare questioni che diventano sempre più urgenti”, disse ele, citando ainda a figura curiosa de Carlos “Kaiser” Raposo — o jogador que fez carreira sem nunca realmente jogar — como metáfora dos artifícios e das aparências que atravessam nosso tempo.
Na noite das cover do Festival, Dargen D’Amico subiu ao palco ao lado de Pupo e do trompetista jazz Fabrizio Bosso para reinterpretar a evergreen Su di noi, terceiro lugar em 1980. A versão apresentada foi revisitada e, provavelmente, corrigida — um gesto que traduz como o debate sobre passado e presente pode ser reescrito com novos arranjos e novos sentidos.
Nascido em Milão a 29 de novembro de 1980, Jacopo Matteo Luca D’Amico tem raízes em Filicudi. Cresceu nos cenários de freestyle da cidade com o nome artístico Corvo d’Argento, tomado de um gamebook. No fim dos anos 1990, encontrou Gué Pequeno e Jake La Furia — colegas do Liceo Parini — e juntos fundaram as Sacre Scuole, lançando em 1999 o trabalho 3 MC’s al cubo, primeira etapa de uma carreira que depois seguiu caminhos distintos.
Como solista, D’Amico estabeleceu a etiqueta independente Giada Mesie e, em 2006, lançou Musica senza musicisti. Seguiram-se discos como Di vizi di forma virtù (2008), o projeto D’eCD’ (2010–2011), Nostalgia istantanea (2012) e Vivere aiuta a non morire (2013): obras que mesclam rap, eletrônica e uma assinatura autoral com ecos de Lucio Dalla, Franco Battiato e Enzo Jannacci.
Paralelamente, sua produção como autor cresceu: no Sanremo 2021 ele assinou faixas de destaque como Dieci (Annalisa) e Chiamami per nome (Francesca Michielin & Fedez), confirmando uma capacidade de transitar entre palco e bastidores criativos.
A relação de Dargen com o Festival assinala uma etapa nova: em 2022, estreou com Dove si balla, canção rítmica e coral que falou do país com leveza. Em 2024, voltou com Onda alta, mais duro e inquieto, que terminou em vigésimo lugar, mas consolidou sua postura de usar o palco como um espaço de palavra. Hoje, com AI AI, sua produção se coloca ainda mais como um reframe da realidade — uma tentativa de decodificar, com ironia e responsabilidade, as mudanças tecnológicas e sociais.
Nos últimos anos, projetos como o podcast Tolomeo – Le impronte che lasciamo aprofundaram a reflexão sobre o valor dos pequenos gestos e a dimensão coletiva da experiência. Como ele mesmo diz: “Alcune canzoni nascono come reazione al silenzio”. Não é apenas uma afirmação estética, mas um roteiro oculto da sociedade: quando a cultura decide falar, mobiliza memórias, atenção e, às vezes, inquietações que o mercado preferiu não ouvir.
Em resumo, Dargen D’Amico chega a Sanremo 2026 não só com uma música sobre IA, mas com a ambição de transformar o palco em uma sala de cinema crítica — onde o entretenimento se revela também como diagnóstico e convite à responsabilidade coletiva.






















