Por Chiara Lombardi — No grande teatro do imaginário coletivo que é o Festival de Sanremo, Ditonellapiaga — nome artístico de Margherita Carducci, nascida em 1997 — reaparece com uma canção que funciona como um espelho ácido do presente: Che Fastidio!. Não se trata apenas de um retorno, mas de um movimento programado dentro de uma trajetória que já dialoga com a história da canção italiana, a cultura pop e a semiótica do viral.
O percurso de Ditonellapiaga com Sanremo começou em 2022, quando estreou no palco dell’Ariston com “Chimica” e o dueto com Donatella Rettore — momento que a revelou a um público mais amplo e abriu caminho para a indicação à Targa Tenco pelo álbum de estreia Camouflage. Sanremo voltaria a cruzar seu roteiro: em 2023 participou da serata cover com os Colla Zio em “Salirò” e, em 2025, homenageou Franco Califano com “Un tempo piccolo” ao lado de Tiromancino e Willie Peyote, mostrando uma sensibilidade que flerta entre o palco teatral e o chanson pop.
Com o single “Flash” (2024), Margherita inaugurou uma fase mais madura — sonoridades refinadas, arranjos que dialogam com diferentes gerações e uma rede de colaborações que testemunham uma ampliação de sua linguagem artística. Nesse horizonte também se insere “Ti voglio”, interpretação compartilhada com Ornella Vanoni e Elodie, encontro simbólico entre histórias e sensibilidades diversas da música italiana.
Em 2025, a artista aprofundou o vínculo com a memória pop italiana ao lançar um 45 rpm digital que aproximou duas revisitações dos anos 80: “Cerco un uomo” (sucesso de Sandra Mondaini) e “Febbre d’amore” (do repertório de Marcella Bella). Mas não se tratou de simples cover: a operação cultural de Ditonellapiaga reconstrói atmosferas retro, introduz linhas de synth e batidas diretas, transformando aquelas canções em novos objetos sonoros, meio citação, meio reescrita — um reframe do tempo musical.
Chegar a Sanremo com Che Fastidio! é, nesse contexto, um passo natural. A faixa é uma invectiva eletro-pop que insiste nas fricções da modernidade: da moda milanesa ao smog romano, do sonho americano ao político italiano, sem poupar os clichês do bem-estar radical chic — pilates, almoços saudáveis e pequenas performatividades cotidianas. A letra aponta e desconstrói: ninguém é poupado, e a estética sonora sustenta a ironia.
Ao lado dessa cantautora irônica, um dueto que promete provocar faíscas: TonyPitony, cantor originário de Siracusa, envergando uma máscara que remete a Elvis e tornado viral por textos crús e explicitamente provocadores. Autor da sigla do Fantasanremo, “Scapezzolate”, TonyPitony foi descrito como um “artista conceitual” cuja pesquisa criativa mistura a sensibilidade visionária dos anos 60, a eletrônica contemporânea, uma teatralidade de efeito e a irreverência do trash — uma estética que, deliberadamente, explora os limites do fetiche e do antiproibicionismo.
Esse encontro entre a proposta esteta de Ditonellapiaga e a performance chocante de TonyPitony é, em si, um pequeno roteiro oculto: é a arte pop como espelho do nosso tempo, expondo contradições, satirizando hábitos e reconfigurando memórias. No palco dell’Ariston veremos, portanto, mais que uma canção competitiva; veremos uma peça curta sobre como a música contemporânea reescreve e recicla ícones, mantendo viva a longa conversa entre passado e presente.
Em suma, Ditonellapiaga volta a Sanremo não para repetir, mas para reelaborar — com afeto e ironia — o patrimônio sonoro e cultural italiano: um retorno que é, sobretudo, uma nova narrativa.






















