Por Marco Severini — Espresso Italia.
Em discurso dirigido à Assembleia da União Africana em Adis Abeba, a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni afirmou que “a Itália e a Europa não podem pensar o futuro sem levar a África em devida conta”, situando o continente africano no centro de uma revisão estratégica das relações euro-africanas. O pronunciamento ocorre logo após o segundo cume Itália-África com o primeiro-ministro etíope Abiy Ahmed Ali, realizado na capital etíope.
Meloni classificou o convite para participar da Assembleia dos chefes de Estado e de governo como “um reconhecimento” e declarou que a Itália aceita essa responsabilidade com “respeito e senso de dever”. Como única líder ocidental presente ao fórum, a sua intervenção buscou traduzir sinais diplomáticos em compromissos concretos.
Segundo a premiê, a História acelera e quem negligencia a África corre risco de ficar marginalizado. “O continente não é um capítulo acessório desta História; é um tabuleiro no qual se redesenham eixos de influência”, afirmou, numa leitura que conjuga geopolítica e economia. Meloni destacou que a África dispõe de recursos naturais, terras cultiváveis e, sobretudo, de um capital humano crescente — elementos que exigem políticas de cooperação de longo prazo, especialmente voltadas à formação.
Nesse plano, a Itália tem intensificado investimentos em programas educacionais e de capacitação, inclusive no campo da inteligência artificial, segundo enfatizou a chefe de governo. A ênfase na formação aponta para uma estratégia de longo alcance: transformar potencial humano em vantagem competitiva e estabilidade social, reduzindo assim as pressões migratórias e criando redes de interdependência sustentável.
Meloni também reiterou os contornos do Plano Mattei para a África, apresentado como uma plataforma aberta — não um plano italiano unilateral — para apoiar a agenda africana, em particular a Agenda 2063. O plano privilegia projetos hídricos nesta fase, sublinhando que a cooperação busca prover know-how, tecnologia e investimentos alinhados aos objetivos continentais.
Entre os projetos estratégicos citados, a premiê mencionou o Corridoio de Lobito, a grande dorsale ferroviária e infraestrutural destinada a integrar mercados africanos e conectá-los aos mercados globais. Para Meloni, iniciativas desse tipo requerem “interconexões econômicas eficientes, seguras e rápidas” — uma visão que antevê a África como peça central na tectônica de poder econômico global.
Ao posicionar a Itália como um “ponte privilegiada” entre Europa e África, Meloni articulou uma narrativa de estabilidade institucional e diálogo. Na voz da premiê, há a leitura geoestratégica de que investimentos e cooperação técnica não são apenas filantropia, mas movimentos calculados no tabuleiro internacional para consolidar influência, reduzir vazios de poder e garantir cadeias de valor resilientemente interligadas.
Do ponto de vista diplomático, a presença italiana em Adis Abeba traduz uma tentativa de assegurar um espaço de interlocução estratégica no momento em que atores globais disputam protagonismo no continente. A proposta italiana — voltada a água, infraestrutura e formação — busca solidificar alicerces de cooperação que, se bem-sucedidos, redesenharão fronteiras de influência de forma menos conflituosa e mais integrada.
Em suma, a fala de Meloni não foi apenas um apelo retórico: foi um movimento consciente no grande tabuleiro das relações internacionais, onde a África emerge como protagonista imprescindível para o futuro da Itália e da Europa.





















