Crans-Montana: exame da primeira semana de audiência
Por Giulliano Martini, Espresso Italia — Apuração in loco e cruzamento de fontes descrevem o encerramento da primeira semana do processo que investiga a tragédia conhecida como a strage di Capodanno. O julgamento, que tem como réus o casal Moretti, trouxe à tona elementos que mantêm em aberto questões essenciais sobre a cadeia de responsabilidades e as medidas de prevenção.
A sessão começou e terminou com cenas de forte emoção: familiares gritavam “Vocês mataram nossos filhos” enquanto a acusação e a defesa confrontavam versões sobre a gestão do espaço noturno Constellation, que resultou na morte de 41 jovens e adolescentes. Do lado das vítimas, cerca de cinquenta advogados formalizaram pedidos de justiça e esclarecimentos.
Em oito horas de interrogatório, Jessica Moretti descreveu, em depoimento entre lágrimas, que nunca houve comprovação de testes de evacuação no estabelecimento. “Nunca nos disseram que tínhamos de fazê-las”, afirmou, segundo a sua declaração. A proprietária do disco bar admitiu ainda que, na noite do incidente, havia a presença de dois seguranças conforme seu relato — enquanto a documentação da promotoria indica contrato apenas com um.
Na defesa, Jessica declarou que sua prioridade naquela noite foi dar o alarme, evacuar e acionar os bombeiros o mais rapidamente possível. “Eu mesma sou filha de um bombeiro e esse é o meu reflexo”, disse, tentando responder à raiva das famílias presentes.
O depoimento de Jacques Moretti, no dia anterior, seguiu por caminho oposto: ele rejeitou a tese de falhas exclusivamente atribuíveis ao local e imputou responsabilidades também ao Comune e ao Cantone. Entre as acusações feitas por Jacques está a de que o sistema de ventilação do Constellation não foi jamais controlado por autoridades, hipótese que, se comprovada, pode alterar a compreensão sobre a propagação do incêndio no subsolo do local.
Além disso, advogados e investigadores apontaram problemas no sistema informático que deveria registrar e gerir as fiscalizações dos locais noturnos, abrindo uma frente de apuração sobre a eficácia dos mecanismos de controle e supervisão oficiais.
Ao centro do processo estão as imputações de homicídio culposo, lesões e incêndio culposo contra os proprietários. Paralelamente, o prefeito de Crans-Montana, Nicolas Féraud, passou a responder a acusações formuladas por dois advogados suíços que o imputam por dolo direto e por omissões legais relativas à proteção contra incêndios e deveres communais. Féraud, por enquanto, informou que não dará declarações adicionais; ele também foi alvo de críticas por não ter apresentado desculpas públicas na conferência de imprensa de 6 de janeiro.
O balanço da primeira semana é, nas palavras dos presentes, de mais perguntas do que certezas. A instrução agora deve aprofundar a verificação de documentos contratuais, laudos técnicos sobre ventilação e registros de fiscalização municipal e cantonal. A audiência segue sob estreita observação das famílias e da opinião pública, que exigem respostas claras sobre como uma noite de celebração terminou em perda massiva de vidas.
Persistem pontos centrais a serem esclarecidos: a real extensão das obrigações de controle por parte do Cantone e do Comune, a compatibilidade entre protocolos de segurança e a prática observada no estabelecimento, os registros eletrônicos de fiscalização e a possível insuficiência de brigada ou equipamentos de evacuação no local.
Na próxima semana, a expectativa é pela apresentação de novos documentos periciais e pela inquirição de testemunhas-chave, medida que poderá reduzir as lacunas factuais que marcaram os primeiros dias do julgamento.
Giulliano Martini — Espresso Italia. Reportagem com base em depoimentos em audiência, documentos da promotoria e entrevistas com advogados de partes.






















