Por Alessandro Vittorio Romano — Em meio à agitação das pistas que acolhem a corrida olímpica, Bormio cedeu espaço, por um dia, a um outro tipo de competição: a defesa da saúde do cérebro. O encontro intitulado “Un cervello da medaglia d’oro”, promovido pela seção Lombardia da Società Italiana di Neurologia (SIN) e incluído nas Olimpíadas culturais com o patrocínio da Regione Lombardia, reuniu neurologistas, instituições e campeões olímpicos em um diálogo aberto à cidade.
A ideia foi clara: a Milano-Cortina 2026 não é feita apenas de medalhas, descidas e recordes — é também uma oportunidade para lembrar que a proteção do cérebro deve entrar na agenda pública com a mesma energia com que se prepara uma equipe para os Jogos. Bormio, palco das provas de esqui alpino masculino, transformou-se assim na capital por um dia da prevenção neurológica.
Mario Zappia, presidente da SIN, foi direto: enquanto a prevenção das doenças cardiovasculares e do câncer já colheu ganhos palpáveis, “para as doenças neurodegenerativas ainda temos muito a fazer”. Zappia destacou que hoje conhecemos vários fatores de risco modificáveis e que intervenções precoces e direcionadas podem reduzir tanto a frequência quanto a gravidade dessas patologias.
Dentro do contexto olímpico, Zappia insistiu sobre a gestão do trauma cranioencefálico — lembrando que lesões na cabeça podem ser fatores de risco para doenças como o Parkinson. A recomendação foi clara: é preciso mitigar riscos com proteção adequada, corpo médico nas pistas e protocolos que garantam encaminhamento rápido aos centros hospitalares. “A tempestividade do cuidado pode fazer a diferença”, disse ele, e essa frase ecoa como um lembrete de como o tempo é a primeira infraestrutura que protege o organismo.
Do ponto de vista organizacional, Simone Vidale, presidente da seção lombarda da SIN, defendeu a criação de uma verdadeira rede subsidiária entre hospitais da região. Para Vidale, “o cérebro é a primeira infraestrutura do nosso corpo” e protegê-lo é um investimento em qualidade de vida e na sustentabilidade do sistema de saúde. Ele enfatizou a importância de percurso clínico-assistencial bem estruturado para patologias neurológicas agudas, com integração entre unidades hospitalares para garantir intervenções rápidas e continuidade da assistência — algo ainda mais crítico quando se lida com o fluxo e a pressão gerados por grandes eventos.
Alessandro Padovani, Past President da SIN, ampliou o horizonte: doenças neurológicas e transtornos psiquiátricos representam hoje um dos maiores desafios da medicina moderna. Doenças como cefaleia, insônia, acidente vascular cerebral, Parkinson, esclerose múltipla e declínio cognitivo afetam uma parcela significativa da população. Segundo Padovani, há espaço para reduzir tanto a incidência quanto a disabilidade por meio de políticas públicas eficazes, integração assistencial e educação preventiva.
Ao sair do auditório para as ruas nevadas de Bormio, fica a imagem de uma cidade que respira como se fosse um organismo único: a respiração da cidade sincroniza-se com a respiração de quem vive nela. A mensagem do encontro foi prática e poética ao mesmo tempo — cuidar do cérebro é cuidar das raízes do bem-estar coletivo. Em tempos de grandes eventos, quando o corpo e a cidade aceleram, é fundamental lembrar que a verdadeira vitória é a saúde preservada, a proteção antecipada e a rede pronta para agir.
Como observador sensível às estações e aos ritmos humanos, vejo esta mobilização como uma semente lançada na neve: se regada com políticas públicas e atenção clínica, pode florescer como uma colheita de hábitos que protegerá gerações. Bormio mostrou que esporte e saúde caminham lado a lado — e que a prevenção é o pódio mais importante onde todos podemos subir.






















