Por Marco Severini — Na Conferência de Munique sobre segurança, a diplomacia internacional apresentou-se como um tabuleiro onde avanços táticos coexistem com linhas de fratura estratégicas. Autoridades norte-americanas descreveram progressos técnicos nas conversações, mas a realidade no terreno e o contexto político revelam que os nós mais espessos ainda não foram desatados.
O senador americano Marco Rubio, em seu pronunciamento, sintetizou a posição de Washington: há uma redução do número de pontos em discussão nas tratativas, porém permanece incerto se a Rússia deseja, de fato, uma paz estável. Segundo Rubio, Moscou declara intenção de diálogo, mas condiciona esse gesto a termos que ainda suscitam dúvidas quanto à sua aceitabilidade para a Ucrânia e à sua sustentabilidade política dentro do regime russo.
Na leitura de Washington, o objetivo é identificar uma solução negociada que seja aceitável para Kiev e, ao mesmo tempo, plausível para Moscou — um equilíbrio delicado, quase um lance de fim de jogo no qual ambas as partes preservem algum espaço de manobra. Rubio ressaltou que ninguém se oporia a um acordo, desde que as bases sejam justas e duradouras, e anunciou que os esforços diplomáticos prosseguirão em preparação ao novo round em Ginebra, marcado para terça-feira.
No mesmo foro, o presidente Zelensky adotou um tom de reivindicação moral e estratégica. Reivindicando o direito ao respeito soberano do seu país, ele enfatizou a centralidade da defesa aérea — infraestrutura e sistemas que mantêm a capacidade operacional de um Estado sob ataque prolongado — e fez um apelo por reconhecimento ao sacrifício do povo ucraniano. Zelensky exibiu dados e imagens das áreas atingidas, descrevendo um quadro de destruição que não se restringe a frentes de batalha, mas atinge civilidade e infraestrutura.
Em números citados pelo presidente, somente em janeiro a Ucrânia foi alvo de cerca de 6.000 drones de ataque — em grande parte drones Shahed — além de mais de 150 mísseis e mais de 5.000 bombas de queda livre. Imaginar tais ataques sobre cidades europeias, disse ele, equivale a compreender que a guerra não é uma abstração distante, mas uma realidade cotidiana que consome lares, escolas e usinas elétricas. “Não existe agora uma usina que não tenha sofrido pelo menos um ataque”, afirmou, numa demonstração calculada de evidência visual e moral.
Zelensky também alertou para a estratégia russa de semear divisões entre Kiev e seus aliados, na Europa e na comunidade euro-atlântica. “Nossa unidade é o melhor interceptador contra os planos agressivos da Rússia”, afirmou, sublinhando que a coesão do bloco ocidental representa hoje o principal contrapeso ao redesenho de fronteiras invisíveis que Moscou tenta impor. Em um tom duramente crítico, o presidente ucraniano qualificou o líder russo como um “escravo da guerra”, expressão que busca, mais do que insultar, delinear a lógica autodestrutiva que imobiliza decisões racionais em Moscou.
O quadro que emergiu em Munique é, portanto, de avanços parciais no processo negocial e de persistente desconfiança estratégica. A anisotopia do momento — avanços táticos que não se traduzem em acordos estratégicos — lembra um final de partida em que as peças foram reduzidas, mas o xeque-mate permanece distante. A diplomacia ocidental seguirá trabalhando para transformar ganhos técnicos em estabilidade política, conscientes de que os alicerces da paz dependem não só de concessões, mas da preservação da dignidade e da segurança dos estados envolvidos.
Para os observadores de longo prazo, a lição é clara: sem uma arquitetura de garantias que proteja os interesses vitais da Ucrânia e ofereça previsibilidade a Rússia, qualquer avanço continuará sendo um movimento temporário no tabuleiro, sujeito a reversões e choques. A tectônica de poder na Europa Oriental permanece, portanto, em tensão — e a iniciativa diplomática deve conciliar pressa e prudência, audácia e ancoragem institucional.






















