Por Chiara Lombardi — Quando o rap se apresenta como espelho do nosso tempo, chega ao palco maior da canção italiana não como uma concessão ao nazional‑popolare, mas como o reframe de uma trajetória. É assim que vejo a entrada de Luchè em Sanremo 2026 com a canção Labirinto: não uma virada, mas a afirmação de uma coerência artística construída entre periferia, feridas e disciplina.
Labirinto é apresentado como um mapa interior — uma tensão entre força e fragilidade, entre disciplina e excesso. Nas linhas da canção, há a consciência das armadilhas do sucesso e das relações, mas também a intimidade quase documental de quem canta a própria experiência: “Potevamo rimanere in contatto e invece niente siamo polvere sui mobili in una casa vuota”. A letra não se reduz a confessos; funciona como um roteiro oculto que nos obriga a olhar para as contradições do presente.
O anúncio da participação de Luchè na kermesse vem na esteira de passos já marcantes: em 2024, ele havia conquistado a plateia na serata delle cover com um medley que cruzava rap e repertório pop, ao lado de nomes como Geolier, Guè e Gigi D’Alessio. Em 2026, o festival o coloca novamente em diálogo com outra geração: no palco do Teatro Ariston ele se une a Gianluca Grignani para uma nova versão de “Falco a metà“, clássico do álbum Destinazione Paradiso (1995), relançado em edição especial pelos 30 anos.
O dueto com Grignani funciona como encontro de estratos da canção italiana: o cantautor com sete presenças em Sanremo e uma carreira construída no lirismo rock‑pop; o artista urbano que trouxe o realismo das periferias para a linguagem contemporânea do rap. Grignani retorna ao Ariston com uma longa história no festival — entre participações em 1995 (categoria Nuove Proposte), e nos anos 1999, 2002, 2006, 2008, 2015 e 2023 — e com parcerias já históricas, como nos duetos de 2012 com Pierdavide Carone e de 2022 com Irama.
Luchè, nascido Luca Imprudente (1981), vem da periferia norte de Nápoles e é uma das vozes centrais do rap italiano contemporâneo. As raízes estão no duo Co’Sang, formado com Ntò no fim dos anos 1990: rap em dialeto napolitano, realismo sem apelo folclórico. Álbuns como Chi more pe’ mme (2005) e Vita bona (2009) tornaram‑se peças de culto e reconfiguraram a narrativa urbana italiana. Na trajetória solo, projetos como Malammore (2016) ampliaram seu alcance para o grande público, mantendo, no entanto, uma postura autoral e resistente à homogeneização.
Em termos culturais, a presença de Luchè no festival é mais do que um evento musical: é a confirmação de que o rap cruzou a linha que separa a margem do centro e passou a dialogar com as instituições de memória coletiva. É também um sinal de maturidade do gênero, que se apresenta agora com a complexidade de quem escreve sobre identidade, dor e reconhecimento sem recorrer a atalhos.
Sanremo, palco que historicamente reescreve canções em hits e memórias, acolhe assim um artista que carrega na própria voz a geografia da periferia e a reflexão do artista maduro. Labirinto promete não só disputar prêmios mas provocar escutas: a canção se insere no roteiro do festival como um pequeno espelho da sociedade, capaz de refratar tensões e oferecer novas narrativas para o público.
Ao público cabe agora acompanhar o desenlace: como a canção será recebida no Ariston, e que ecos culturais esse encontro entre Luchè e Gianluca Grignani vai provocar no cenário italiano. Para quem observa, resta a satisfação de ver o festival ampliando seu espectro — e a esperança de que a canção continue a funcionar como um dispositivo de reflexão, e não apenas de espetáculo.






















