Por Otávio Marchesini, Espresso Italia — Em uma final que revisita a ideia de resistência como traço identitário, Michela Moioli garantiu a medalha de bronze no snowboardcross dos Jogos de Milano-Cortina 2026, em Livigno. A campeã bergamasca, que já havia sido ouro em Pyeongchang 2018 e prata por equipes em Pequim 2022, subiu ao pódio pela terceira vez em sua carreira olímpica, atrás da australiana Baff (ouro) e da tcheca Adamczykova (prata).
O significado esportivo dessa conquista se mistura com uma narrativa de superação: dois dias antes da final, Moioli sofreu uma queda nos treinos que deixou marcas visíveis — hematomas no rosto e dores — e poderia ter comprometido toda a sua participação. Em vez disso, a atleta recorreu a uma combinação de experiência competitiva, suporte da equipe técnica e um repertório pessoal de resistência para reconstruir sua corrida.
Na semifinal e, em seguida, na big final, a italiana impôs uma recuperação progressiva e calculada, característica de quem conhece a dinâmica de corridas curtas e explosivas como o snowboardcross. Ao cruzar a linha, o gesto simbólico — o beijo na neve seguido de um abraço com o público — consolidou uma imagem que as Olimpíadas tendem a preservar na memória coletiva: a do atleta que se reergue.
Nas palavras de Moioli, transpostas para o português, a mensagem foi direta e quase aforística: “Moioli never dies — Michela não morre nunca”. Ela contou que, após a queda, precisou do amparo da família e da sua equipe para conseguir alinhar-se mentalmente e competir. “Sou assim: muitas vezes preciso tocar o fundo para que ocorra o clique. Renascimento como uma fênix, mas carrego as queimaduras das chamas”, disse a campeã em conferência de imprensa.
Esses elementos — a queda, a recuperação, o apoio estrutural — são, para além do relato pessoal, indicativos da complexa relação entre investimento esportivo e resiliência individual. Moioli afirmou ainda que viveu essa Olimpíada nos últimos sete anos e que, após o evento individual, pensa na prova por equipes que ocorre no domingo. Quanto ao futuro, não fechou portas: “Amo esse esporte; gosto dele mais do que antes, mas vou tirar um tempo para respirar e me recuperar.”
Do ponto de vista histórico e cultural, a trajetória de Moioli reforça um padrão recorrente no esporte italiano contemporâneo: atletas que se transformam em símbolos regionais e nacionais, carregando memórias locais (no caso, a tradição de esportes de neve no norte da Itália) e discursos de resiliência que reverberam além das pistas. Em Livigno, a imagem de Moioli — marcada pelas provas e pela emoção — deve permanecer como um dos ícones destas Olimpíadas.
Para a delegação italiana, esta é a décima oitava medalha nos Jogos de Inverno de Milano-Cortina 2026, um indicador de profundidade competitiva que combina individuais de elite e planejamento de equipe. Em um cenário em que estádios e pistas se convertem em anfiteatros de identidade coletiva, a medalha de Michela Moioli confirma tanto uma excelência técnica quanto uma narrativa social de persistência.
Imagem sugerida: Moioli beijando a neve após a chegada, com o rosto ainda marcado pela queda; público e bandeiras italianas ao fundo.






















