Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Em um dia que reafirma tanto a permanência quanto a renovação da história do esporte italiano, Michela Moioli voltou a brilhar em casa: a campeã de Bergamo garantiu a medalha de bronze no snowboard cross em Milano Cortina 2026, disputado nas pistas de Livigno, nesta sexta-feira, 13 de fevereiro. A conquista representa o terceiro pódio olímpico da carreira de uma atleta que faz da resistência pessoal e da continuidade competitiva sua marca registrada.
A trajetória de Michela Moioli combina feitos individuais e uma função simbólica maior. Primeiro nome da Itália a conquistar um ouro olímpico no snowboard cross — em Pyeongchang 2018 —, Moioli soma ainda três Taças do Mundo gerais (2016, 2018 e 2020) e o título mundial obtido em março de 2025 na Engadina. Além disso, o pódio em Beijing 2022, com a medalha de prata no mixed team ao lado de Omar Visintin, completou um currículo que respira consistência.
Nascida em 17 de julho de 1995, em Bergamo, Moioli carrega laços locais que se estendem para além das pistas. A afinidade com a colega e amiga Sofia Goggia, ambos torcedores do Atalanta, é parte de um mapa afetivo que liga a geografia lombarda à narrativa esportiva nacional. É dessa tradição regional que brota também o lema herdado da avó Adriana: “Molà mia” — um aviso lacônico e potente, que resume a sua capacidade de atravessar lesões, expectativas e decisões táticas com uma obstinação serena.
Em entrevista recente à Adnkronos, Moioli descreveu a entrada em seus quartos Jogos Olímpicos com uma postura transformada: “Com os Mundiais eu fechei um ciclo; queria a vitória para completar o meu percurso como atleta. Agora chegarei a Milano Cortina, a minha quarta Olimpíada, com muito mais serenidade. É uma mudança de abordagem. Quero aproveitá-la; não é todo dia que se disputa um evento assim em casa. Ao abrir o portão de largada, a vontade de vencer volta — desta vez, com maturidade e experiência que antes eu não tinha”. As palavras são úteis para entender o duplo registro do desempenho: prazer em competir em casa e ambição controlada no calor da disputa.
O bronze em Livigno, além de enriquecer um palmarés já brilhante, funciona como peça de um discurso maior sobre a longevidade do atleta moderno. Em um ciclo olímpico que exige recuperação rápida, planejamento e diálogo com estruturas técnicas, a capacidade de Moioli de traduzir conhecimento acumulado em resultados concretos é exemplar. Não se trata apenas de um retorno ao pódio: é a confirmação de um projeto esportivo que aprendeu a gerir expectativas, lesões e a mídia, sem abrir mão da intensidade competitiva.
Para o público italiano, e especialmente para Bergamo, a figura de Michela Moioli representa um ponto de convergência entre tradição local e projeção internacional. Stádios e pistas se tornam palcos onde identidades são renovadas; atletas, como Moioli, são portadores de memórias coletivas e de promessas futuras. O bronze de Milano Cortina 2026 acrescenta um capítulo dignamente escrito nessa narrativa.
Em termos práticos, a medalha também tem impacto direto nas expectativas para os próximos anos: confirma a atleta como referência da disciplina e deixa em aberto a possibilidade de novas estratégias competitivas, inclusive em outras frentes do snowboard e do trabalho em equipe com a seleção italiana.
Registrada a emoção do dia, resta observar como esta conquista será integrada à memória esportiva do país — e de Bergamo — nos próximos meses. Para Moioli, a história segue: com método, raízes e a inquebrantável filosofia de vida que a acompanha desde a infância.






















