Por Riccardo Neri — A mais recente análise da unidade TrendAI, da Trend Micro, mapeia uma mudança estrutural no ecossistema do crime digital: a inteligência artificial deixou de ser uma curiosidade experimental para se tornar uma ferramenta operacional rotineira. Em vez de perseguirem novidades tecnológicas, os atores maliciosos estão investindo na redução de custos, na confiabilidade e na reprodutibilidade de serviços ilícitos.
O relatório “They Don’t Build the Gun, They Sell the Bullets. An Update on the State of Criminal AI” descreve um percurso em três fases que lembra a industrialização de qualquer serviço: consolidação, automação adaptativa e massificação de técnicas de engano. No nível do submundo digital, a sobrevivência já não passa pela construção de modelos proprietários; passa pela capacidade de explorar infraestruturas comerciais existentes. Em termos práticos, isso significa que grupos criminosos estão usando jailbreak e prompt engineering para forçar provedores legítimos a executar código ou a produzir conteúdos que servem seus fins.
A segunda etapa do ciclo evolutivo é a emergência de malware adaptativo: códigos capazes de gerar ou alterar partes de si mesmos mediante solicitações alimentadas por IA. Ainda restringidos por limitações operacionais, esses exemplos apontam para uma transição rumo a ataques polimórficos — software malicioso que muda de forma e de alvo para escapar de sistemas de detecção tradicionais. Pense nisso como um pacote de infraestrutura que recalibra suas rotas conforme encontra obstáculos no caminho.
A terceira fase é a popularização dos deepfakes. Ferramentas de clonagem de voz e substituição facial, agora economicamente acessíveis, transformaram-se em vetores diretos para fraudes de impersonificação e infiltrações corporativas. A facilidade de reprodução desses artefatos reduz a barreira de entrada para criminosos menos sofisticados, transformando o deepfake em um componente padronizado no catálogo de ameaças.
Apesar desses ganhos ofensivos, as defesas mantêm, por ora, uma margem de vantagem — em especial graças à intelligence automatizada e à integração de sinais em camadas. No entanto, o relatório alerta que esse gap está se estreitando: o ecossistema criminoso absorve valor das tecnologias com velocidade superior àquela típica da implementação de contramedidas. Em termos de arquitetura urbana, é como se os atacantes estivessem acelerando a construção de ramais enquanto a manutenção da rede principal não consegue acompanhar.
Marco Fanuli, Technical Director da TrendAI Itália, sintetiza: “As previsões para o futuro não são apocalípticas, mas incrementais. Não teremos uma explosão súbita de caos liderada pela IA, e sim um aperfeiçoamento profissional contínuo das ferramentas que vemos hoje. Esse avanço silencioso torna os ecossistemas criminosos mais resilientes e difíceis de erradicar.”
O risco central, portanto, não é um salto tecnológico instantâneo, e sim a normalização: com a queda das barreiras de acesso, a IA se torna parte fixa do crime informatizado. Organizações devem tratar essas capacidades como elementos ordinários na avaliação de risco, incorporando controles, processos de verificação e planos de resposta que considerem malware gerado por IA, deepfakes e abuso de identidade como ameaças contínuas.
Em resumo, estamos diante de uma profissionalização do crime digital, impulsionada pela reutilização de grandes plataformas, pela transformação do código malicioso em uma infraestrutura adaptativa e pela democratização das técnicas de engano. Para os responsáveis por segurança na Europa e na Itália, a tarefa é migrar de respostas reativas para arquiteturas defensivas integradas — redes de proteção que funcionem como alicerces digitais, capazes de reduzir a superfície de ataque e acelerar a detecção e remediação.






















