Por Marco Severini — A última fotografia demográfica do Velho Continente revela um movimento tectônico silencioso que redesenha, com lentidão inexorável, as frentes do poder social e econômico. Segundo dados da Eurostat referentes ao corte de 1º de janeiro de 2025, a idade média da população da UE atingiu 44,9 anos — um acréscimo de 2,1 anos em apenas uma década. Em termos práticos de estabilidade e orçamento público: hoje há, na União Europeia, um pensionado a cada três trabalhadores.
O relatório não é mero dado estatístico; é um aviso geopolítico. Com menos pessoas em idade ativa e mais idosos, aumenta-se a pressão sobre os alicerces do contrato social — pensões, saúde, serviços de cuidados. A própria Eurostat aponta que esse padrão “poderá comportar um aumento do encargo para as pessoas em idade ativa, para cobrir a despesa social necessária a uma população que envelhece”.
O envelhecimento não é homogêneo no tabuleiro europeu. A Itália destaca-se pela ponta mais avançada do envelhecimento: a média etária chega a 49,1 anos e, desde 2015, cresceu cerca de quatro anos. Também registaram aumentos significativos a Eslováquia, Chipre, Grécia, Polónia e Portugal. Em sentido inverso, apenas a Alemanha e Malta apresentam uma diminuição marginal da média — 0,4 anos — num movimento que pode ser interpretado como exceção tática, não como tendência consolidada.
Os extremos do mapa demográfico permanecem claros: a Irlanda é o Estado-membro mais jovem, com 39,6 anos de média, enquanto a Itália encabeça a lista dos mais velhos. Na totalidade da UE, a população estimada em janeiro de 2025 era de 450,6 milhões de pessoas, das quais 22% têm 65 anos ou mais. Crianças até 14 anos representavam 14,4% e a população em idade de trabalho 63,6%.
O padrão de declínio da natalidade acentua a assimetria. Em termos nacionais, a Itália é particularmente preocupante: os menores de 14 anos constituem apenas 11,9% da população, contra 24,7% que têm 65 anos ou mais — quase um quarto dos italianos.
Projeta-se que a UE possa atingir um pico populacional em torno de 453,3 milhões ainda neste ano, seguindo-se um declínio gradual até aproximadamente 419,5 milhões em 2100. A longo prazo, as estimativas de primavera de 2023 — atualizadas por Eurostat — sugerem que, ao final do século, os maiores de 65 anos poderão superar os 32% da população total. São movimentos de longa duração, como no jogo de xadrez entre gerações, onde cada lance altera o equilíbrio de recursos e responsabilidades.
Do ponto de vista estratégico e fiscal, o efeito cascata é inevitável: sistemas de pensões e serviços sociais terão de ser repensados; mercados de trabalho e políticas migratórias serão peças-chave para equilibrar o tabuleiro. A arquitetura das políticas públicas europeias enfrenta agora o desafio de sustentar um modelo social que foi construído sob outras demografias — alicerces que se mostram hoje mais frágeis.
Em síntese, o continente envelhece e a tectônica de poder interno exige respostas calibradas, prudentes e de longo prazo. Não se trata apenas de números, mas de um redesenho invisível das fronteiras entre gerações, com implicações profundas para a estabilidade socioeconômica europeia.
Marco Severini é analista sênior em geopolítica e estratégia internacional da Espresso Italia.






















