Sanremo voltou a ser palco de debate — não apenas sobre canções, mas sobre autonomia artística e responsabilidade pública. Em entrevista ao canal Rtl 102.5, o apresentador e diretor artístico Carlo Conti deixou claro que os responsáveis pelo Festival têm carta branca para as suas decisões e negou qualquer interferência do governo.
Conti relembrou que, nos anos anteriores, também não houve ingerência externa e que o papel dos diretores artísticos sempre foi exercido com independência: «Nosso papel é profissional e autônomo; ninguém diz quem devemos convidar ou como conduzir o festival». A declaração ecoa como um princípio básico da curadoria cultural: o roteiro oculto da sociedade não deve ser escrito por mãos alheias ao processo criativo.
Sobre o episódio envolvendo o comediante Pucci — cuja foto nua foi usada em tom de anúncio antes de um recuo — Conti assumiu a responsabilidade final pela escolha e disse que se tratou de uma decisão inteiramente sua. Pucci havia sido escolhido em função do sucesso de público obtido na Arena e por resultados comerciais no teatro: «Se houve falhas, são minhas», afirmou o diretor. A foto, acrescentou, foi «uma goliardata», uma brincadeira que fugiu à gravidade do palco maior, e Conti manifestou o desejo de que, no começo do Festival, a atenção volte «apenas à música, aos cantores e às canções» — à leveza necessária para noites de espetáculo.
Em um tom que mistura orgulho e senso de passagem, Carlo Conti apontou que o próximo Sanremo será seu quinto à frente da direção artística: um número que ele considera «perfeito para parar». Referindo-se aos últimos doze anos, lembrou que a direção artística foi conduzida por três pessoas, e que agora talvez seja saudável promover novas ideias e renovar a energia do evento. «Fizemos um trabalho grande, mas também é melhor mudar», disse, delineando o festival como um organismo que precisa de renovação para se manter vibrante.
Essa fala de Conti merece leitura além da superfície do entretenimento: Sanremo é, há décadas, um espelho do nosso tempo — um ponto de encontro entre indústria, memória coletiva e projetos de identidade nacional. A defesa da autonomia artística coloca em foco a tensão entre espetáculo e controle, entre o desejo de agradar plateias e a responsabilidade cultural de moldar discursos públicos.
No balanço final, Conti reafirma uma compreensão clássica e europeia do papel do curador: orientar o espetáculo sem se curvar a pressões externas; assumir erros quando ocorrem; e, sobretudo, defender que o festival volte a ser uma celebração da música — a narrativa central que dá sentido às noites de Sanremo.
Data da entrevista: 13 de fevereiro de 2026.






















