Há imagens que funcionam como uma madeleine moderna: uma cassete de VHS coberta de pó, o toque nervoso de quem a desliza no velho videocassete e a ansiedade de que o fita não se parta. Essa pequena cerimônia doméstica é o ponto de partida para o meu tributo a Dawson’s Creek, agora revisitado à sombra da partida de James David Van Der Beek. O efeito proustiano persiste — e com ele, o peso das memórias coletivas que as séries carregam.
Transmitida em seis temporadas e com 128 episódios, Dawson’s Creek desembarcou na televisão italiana no começo do novo século via Italia 1. Mas o que a série ofereceu não foi apenas entretenimento; foi um mapa sensorial do que significa atravessar a adolescência em tempos de transformação cultural. Na pequena cidade costeira de Capeside, quatro estudantes do ensino médio desvendavam, com honestidade e frequência dolorosa, os contornos da sua própria linha d’ombra.
O protagonista Dawson Leery — interpretado por James Van Der Beek — é o jovem cineasta em formação, um americano com um sonho quase clássico: seguir os passos de Steven Spielberg. Sua devoção ao cinema não é apenas hobby de roteiro; é o ponto de partida estético que colore toda a série, povoando os diálogos e as imagens de citações e referências que transformam o quotidiano em mise-en-scène.
Ao contrário de muitos produtos da época que preferiam o brilho envernizado de cenários como Beverly Hills, Dawson’s Creek conquistou audiência ao permitir que os personagens falassem no seu próprio idioma — um tom simultaneamente desencantado e vulnerável, cheio de ingenuidade e súbita clareza. Não se tratava tanto de representar uma geração quanto de oferecer uma lente paradigmática: o teen drama como espelho de contradições, desejos e dúvidas.
Entre temas tratados francamente na série estavam o uso de drogas, a descoberta da sexualidade, inclusive a homossexualidade, e até a infidelidade conjugal dos pais — assuntos que, num contexto televisivo mais conservador, ganhavam uma visibilidade e uma delicadeza pouco comuns. Por trás da aparência integrada e aparentemente despreocupada dos personagens, havia um resto emocional resistente, uma camada de inquietação que a narrativa explorava sem didatismo.
O que permanece, duas décadas depois, é o efeito cultural de uma série que ajudou a nomear e moldar um gênero. Aprendemos a articular o vocabulário do teen drama e, mais que isso, a reconhecer que a adolescência, vista pela lente de Dawson’s Creek, não é apenas um período de crise: é um laboratório de identidades e um pequeno palco onde se ensaia a vida adulta. Se hoje revisitamos aquelas cenas em uma cassete ou em uma plataforma de streaming, o que nos seduz é o roteiro oculto da sociedade ali refletido — e a confirmação de que certas inquietações continuam a nos definir.
Chiara Lombardi
Espresso Italia — Cultura pop, comportamento e impacto






















