Por Stella Ferrari — A mais recente embarcação chinesa destinada ao extremo norte, um rompe‑gelo de propulsão nuclear capaz de atravessar camadas de gelo de até 2,5 metros, materializa a ambição estratégica de Pequim no Ártico. O navio, projetado pelo instituto estatal 708, é apresentado pela China como um cargueiro multiruolo e também como plataforma para o turismo polar; todavia, seu papel simbólico e operativo transcende a mera atividade civil.
Como estrategista, vejo essa iniciativa como a calibragem de um novo motor geopolítico: a China está afinando capacidade logística, científica e, potencialmente, militar para operar em um teatro onde as condições ambientais e tecnológicas exigem engenharia de ponta. Poucos analistas acreditam que o programa chinês no Ártico seja exclusivamente científico. A lista de atividades inclui construção de estações de pesquisa, cooperação em projetos de petróleo e gás, e patrulhas conjuntas com a Rússia em áreas próximas ao Alasca — sinais de um claro interesse dual, civil e militar.
O avanço chinês em quebra‑gelo tem acelerado o alarme no Ocidente, reacendendo debates sobre soberania e acesso a rotas marítimas mais rápidas — e, portanto, mais lucrativas. A tentativa do então presidente americano Donald Trump de reivindicar a aquisição da Groenlândia ilustra como a disputa por influência no Ártico pode se transformar numa característica permanente da competição sino‑estadunidense. Helena Legarda, do Merics, sintetiza a visão: a China vê o Ártico como uma nova fronteira estratégica crucial na sua competição com os EUA e o Ocidente.
O estaleiro responsável pela construção do novo rompe‑gelo também entregou a porta‑aviões Fujian — sinal claro da capacidade industrial do conglomerado estatal China State Shipbuilding Corp. Desde a compra do Xue Long (Dragão de Neve) da Ucrânia, em 1993, até a instalação de estações permanentes em Svalbard e Islândia, Pequim foi progressivamente montando uma presença que combina ciência, comércio e projeção de poder.
Com o degelo das calotas, emergem oportunidades e riscos: rotas comerciais abreviadas, maiores facilidades de exploração de recursos naturais e instalações estratégicas — incluindo posicionamento de satélites e plataformas submarinas. A concorrência por esses ativos transforma o Ártico num tabuleiro onde a engenharia naval e a diplomacia se encontram, e onde a ausência de uma arquitetura de governança robusta aumenta o potencial de tensões.
Para executivos e investidores, a mensagem é clara: a Via da Seda Polar não é apenas um conceito comercial; é um projeto de longo prazo que exige avaliação de risco geopolítico, resiliência logística e visão de rede. Como uma calibragem fina de políticas públicas e decisões corporativas, é preciso ajustar estratégias para operar em ambientes onde a economia encontra a segurança e a tecnologia — o motor da economia global está recalibrando suas engrenagens no Ártico.
Em consequência, a atuação chinesa aliiza desafio e oportunidade. A resposta dos Estados Unidos e de seus parceiros europeus determinará se veremos uma governança cooperativa ou uma escalada na competição pelo controle de rotas e recursos. Para quem pensa em alto desempenho — empresas de energia, logística e investidores institucionais — o tempo de projetar cenários e posicionar ativos é agora.






















