Por Marco Severini — Em um movimento que remete a um lance decisivo no tabuleiro diplomático europeu, está confirmado o próximo encontro trilateral entre Estados Unidos, Rússia e Ucrânia a realizar-se em Genebra nos dias 17 e 18 de fevereiro. O porta-voz do Kremlin, Dmitrij Peskov, anunciou que a delegação russa será conduzida pelo assessor presidencial Vladimir Medinsky, sinalizando uma escolha de alto nível para representar os interesses de Moscou nas conversações.
O formato trilateral — Rússia-Estados Unidos-Ucrânia — volta a ser a arena onde serão testados mecanismos de negociação e garantias de segurança. A nomeação de Medinsky imprime à delegação russa um perfil político e histórico, e evidencia que Moscou pretende manter interlocução estruturada, ainda que em clima de firmeza estratégica. Na linguagem da diplomacia, trata-se de um ajuste tático: reposicionar peças, medir reações e procurar espaço para manobras futuras.
No mesmo compasso europeu, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky desembarcou em Munique para participar da Conferência Anual de Segurança de Munique — um palco clássico para alinhar posturas, fortalecer coalizões e tecer garantias multilaterais. Em sua mensagem na rede X, Zelensky descreveu o dia como “importante” para avançar na segurança compartilhada da Ucrânia e da Europa.
Entre os pontos de agenda destacados pelo líder ucraniano está a primeira iniciativa conjunta de produção de drones ucrano-tedeses, uma iniciativa que revela a modernização das cadeias de defesa e uma tentativa de criar alicerces industriais e estratégicos comuns entre parceiros. Zelensky enfatizou a necessidade de maior produção conjunta, resiliência e coordenação — termos que, no plano prático, traduzem-se em capacidade sustentada de defesa, interoperabilidade e continuidade logística.
Mais do que demonstrar capacidade tecnológica, a iniciativa de drones marca uma tentativa de consolidar garantias tangíveis: produção compartilhada significa menos vulnerabilidade isolada e mais camadas de proteção dentro da arquitetura de segurança europeia. Para Kiev, a ênfase permanece na busca por uma “paz dignitosa” e por garantias de segurança confiáveis que impeçam que qualquer país europeu fique desprotegido.
Do ponto de vista geopolítico, estamos diante de uma tensão entre contenção e negociação — uma tectônica de poder em que as linhas de influência tentam se redesenhar sem alterar de forma irreversível os equilibrios regionais. As negociações em Genebra funcionarão como um teste de coesão entre atores externos e atores locais; as conversas em Munique, por sua vez, servirão para calibrar a resposta coletiva ocidental.
Como analista, vejo esses eventos como etapas encadeadas de um mesmo plano: Genebra oferecerá o espaço formal para diálogo direto com Moscou; Munique permitirá que Kiev consolide apoios e traduza compromissos políticos em instrumentos operacionais, como a produção conjunta de drones. Em resumo, movimentos que, somados, formam um novo desenho de forças — preciso como um lance de xadrez, porém frágil nos seus alicerces se faltarem garantias verificáveis.
Nos próximos dias, atenção às declarações oficiais ao final das sessões em Genebra e aos acordos técnicos emergentes em Munique. Eles dirão se o tabuleiro mudou de forma substantiva ou se apenas assistimos a um reposicionamento tático antes de novos confrontos diplomáticos.






















