Por Marco Severini — O que deveria ser um santuário da memória europeia tem se demonstrado, nas últimas semanas, um palco de falhas sistêmicas. O Louvre, o museu mais visitado do mundo, voltou a enfrentar uma emergência operacional: um vazamento de água ocorrido nas últimas horas obrigou o fechamento de salas que abrigam obras dos séculos XV e XVI.
Segundo relatos, a origem do incidente foi a ruptura de uma tubulação nos andares superiores. A água inundou as salas 706 e 707, imediatamente interditadas ao público. Entre as peças afetadas estão obras assinadas pelo Beato Angelico — como “Il calvario con San Domenico in preghiera” — e por Bernardino Luini, inclusive “Il cristo benedicente”. Os tetos sofreram danos consideráveis, tornando a reabertura, por ora, indefinida.
Trata-se da segunda grande infiltração em poucos meses: em novembro passado, a Biblioteca das Antiguidades Egípcias foi alagada, com documentos e peças comprometidos. Naquele mesmo mês, galleria de antiguidades gregas e vários escritórios foram fechados por fragilidade estrutural em vigas de um dos lados do chamado quadrilátero Sully.
Esses episódios técnicos se somam a uma sequência de crises de natureza diversa que expõem os alicerces frágeis da gestão e da segurança do museu. Ontem, a Procuradoria de Paris anunciou a detenção de nove pessoas ligadas a um esquema de bilhetes falsos, estimado em 10 milhões de euros, envolvendo dois funcionários do próprio museu, guias turísticos e o organizador da fraude. Relatórios internos indicam que algumas guias — segundo fontes, inclusive de nacionalidade chinesa — teriam reutilizado ingressos para permitir entradas múltiplas, gerando receita em dinheiro não declarada.
Ao mesmo tempo, o clima laboral contribui para a instabilidade: greves intermitentes do pessoal, que reivindica melhores condições de trabalho e acusa falhas na segurança, prometem novas paralisações. Os sindicatos confirmaram assembleias e não descartam abstinências laborais que impactariam o fluxo dos quase nove milhões de visitantes anuais.
Em meio a tudo isso, permanece a ferida mais simbólica: o assalto de 19 de outubro de 2025, quando, em plena luz do dia, uma quadrilha subtraiu oito joias da coroa francesa avaliadas em 88 milhões de euros. Quatro suspeitos foram detidos, mas o conjunto roubado ainda não foi recuperado.
O foco político recaiu sobre a diretora Laurence des Cars, cuja permanência tem sido alvo de pressão. Fontes políticas e sindicais relatam que a ministra da Cultura, Rachida Dati, poderia demiti-la antes de uma eventual mudança de governo.
Em janeiro de 2025, o presidente Emmanuel Macron lançou um ambicioso projeto de reestruturação do Louvre, pretendendo deixar uma marca arquitetônica comparável às intervenções históricas do século XX, como a Pirâmide de Ieoh Ming Pei. Todavia, o reparo da imagem e da infraestrutura permanece um movimento complexo: é um jogo de xadrez institucional, em que cada operação exige previsibilidade, recursos e, sobretudo, restabelecer a confiança pública.
Em suma, os recentes alagamentos não são exceções isoladas, mas sinais de uma tectônica de poder e gestão que precisa ser redesenhada com urgência, sob pena de ver ruir a autoridade cultural de um dos maiores acervos do mundo.






















