Por Chiara Lombardi — Em cena como quem entra em um filme na hora certa, Sayf (nome artístico de Adam Sayf Viacava) apresenta-se como uma das vozes renovadoras do urban italiano. O seu debut no palco de Sanremo 2026 com Tu mi piaci tanto chega num momento em que a sua linguagem musical já mostra uma forma madura: um equilíbrio entre identidade cultural, contaminação sonora e uma escrita íntima que funciona como um roteiro do presente.
À primeira audição, Tu mi piaci tanto parece uma canção fácil — melodia imediata que não se desgruda da cabeça. Mas, como um filme que revela camadas no segundo ato, o texto guarda imagens e referências que falam de identidade, pertença e pressão social. “É simples de ouvir, mas o significado se revela depois”, diz Sayf, lembrando que a leveza melódica é apenas a superfície de um discurso mais profundo.
O contraste entre um refrão pegajoso e estrofes densas aproxima a canção da tradição do autor, com citações que percorrem o futebol — de Cannavaro —, a política — de Berlusconi — e a presença simbólica de Tenco, que ele descreve como seu espírito-guia. Há ainda uma linha quase cinematográfica no verso “Ho fatto una canzonetta è un fiore su una camionetta”, que funciona como um refrão de ancoragem entre ironia e emoção.
No palco do Ariston, Sayf dividirá o microfone numa leitura inesperada de Hit the Road Jack, acompanhado por Alex Britti e Mario Biondi. A escolha traduz um diálogo entre mundos: Britti, com seu groove e a guitarra marcada; Biondi, com a voz soul que atravessa fronteiras — juntos, reinventam um clássico de Ray Charles em chave de encontro entre gêneros.
Depois de Sanremo, o artista confirma o álbum Se Dio vuole, sì — título que já cita a fórmula árabe Inshallah, e que sintetiza bem a tensão entre destino e desejo presente em sua música. Diz que vai jogar no Fantasanremo e afirma ir ao Festival com a serenidade de quem não busca provar nada a ninguém: “A música é meu trabalho. Se tive a chance, é algo importante para mim. Vou contente”, afirma, num tom de quem pratica a escuta em vez do espetáculo.
Nascido em Gênova em 1999, em família ítalo-tunisina, Sayf cresceu entre rap, canto e o estudo da trombeta. Seus primeiros passos na cena lígure foram marcados por coletivos e colaborações com artistas como Helmi, Ele A e 22simba: um percurso de contaminações, não de cercamentos estilísticos.
O ano de 2025 foi um ponto de virada: o EP Se Dio Vuole consolidou um rap mais aberto, menos sombrio, que narra cotidianidade, identidade e afetos sem recorrer a estereótipos. Nesse período nasceu também o Santissima Fest, festival fundado por ele em Gênova — no Porto Antico, Arena del Mare — que rapidamente virou referência para a cena emergente e está programado para voltar em 2026.
Seu trânsito para o pop ficou evidente em parcerias que marcaram 2025: “Erica” com Bresh (no álbum Mediterraneo), a hit de verão “Sto bene al mare” com Marco Mengoni e Rkomi, e “Figli dei palazzi” com Néza. Esses movimentos mostram um artista que escreve o roteiro oculto da sua geração: um espelho do nosso tempo, entre memória cultural e desejo de reinvenção.
Em resumo, Sayf chega a Sanremo 2026 não como uma miragem, mas como um ponto de foco. Sua música é um convite para olhar além do hit: perceba os cortes, os refrões e os silêncios — o verdadeiro cinema está nas entrelinhas.






















