Hoje a primeira-ministra Giorgia Meloni desembarca em Addis Abeba para marcar presença no segundo encontro bilateral Itália-África e como convidada de honra na 39ª sessão da Assembleia da União Africana. A missão não é protocolo: trata-se de um momento para fazer o tagliando operacional da estratégia italiana no continente.
O eixo desta checagem é o Plano Mattei, que até agora permitiu mobilizar cerca de 1,4 bilhões de euros. Esses recursos foram colocados em obra por meio de uma arquitetura financeira complexa, em que se destacam o Fondo Italiano per il Clima e o Plafond Africa gerido pela Cassa Depositi e Prestiti (CDP), em parceria com instituições multilaterais como o Banco Mundial, o IFAD e o Banco Africano de Desenvolvimento.
A viagem a Addis Abeba tem como objetivo analisar os resultados já alcançados e identificar ajustes necessários, com atenção especial à questão da burocracia. Fontes diplomáticas admitem que a tramitação administrativa, tanto na Itália quanto em países parceiros africanos, retardou em alguns casos a implementação de projetos. Por isso, 2026 foi apontado como o ano da simplificação, com medidas destinadas a reduzir prazos e desbloquear intervenções.
Seis pilares, intervenções concretas
O Plano Mattei se apoia em um “método da escuta”: rejeita modelos predatórios ou meramente assistenciais e busca uma relação de mutua conveniência com os países africanos — um eco histórico da política de Enrico Mattei, que pôs a Itália em posição estratégica ao negociar recursos energéticos na era pós‑guerra.
Hoje, a iniciativa italiana estrutura-se em seis pilares:
- Educação e formação: criação de centros de excelência profissional para formar mão de obra qualificada;
- Saúde: fortalecimento dos sistemas sanitários locais;
- Agricultura: projetos para segurança alimentar e práticas agrícolas sustentáveis;
- Água: obras e infraestrutura para combater secas e melhorar o acesso;
- Energia: ambição de posicionar a Itália como hub energético entre África e Europa;
- Infraestrutura e inteligência artificial: investimentos que liguem logística física e transformação digital.
Expansão geográfica e parcerias
O mapa do Plano Mattei está em expansão. Dos nove países inicialmente focados — Argélia, Congo, Costa do Marfim, Egito, Etiópia, Quênia, Marrocos, Moçambique e Tunísia — o programa ampliou sua atuação para 14 países em 2025 com a entrada de Angola, Gana, Mauritânia, Senegal e Tanzânia. A meta é avançar ainda mais ao longo de 2026.
Não é mais apenas um esforço italiano ou europeu alinhado ao Global Gateway da UE: o plano atrai interesse de parceiros internacionais, interessados na combinação entre investimentos e governança local. A prioridade agora é traduzir compromissos políticos em obras concretas, superando os obstáculos administrativos que têm sido o principal freio.
Do plano às ruas: o peso da caneta e a construção de direitos
Como correspondente que observa a intersecção entre decisões de Roma e vida dos cidadãos, registro que o verdadeiro teste do Plano Mattei será a sua capacidade de transformar compromissos financeiros em serviços palpáveis: escolas técnicas, centros de saúde, reservatórios de água, redes de energia e centros de inovação em inteligência artificial. Em outras palavras, é preciso que o peso da caneta seja acompanhado pelo trabalho nas fundações — a construção de direitos que beneficiem residentes, migrantes e comunidades ítalo-descendentes no continente.
Em Addis Abeba, a delegação italiana buscará estabelecer um roteiro prático: avaliar cronogramas, reduzir gargalos burocráticos e reforçar alianças financeiras. Se o objetivo é fazer do próximo ano o período da aceleração, então a política terá de provar que sabe derrubar barreiras burocráticas e edificar, com parcerias sólidas, uma ponte entre nações que vá além do discurso.






















