Por Aurora Bellini — Em mais um movimento que acende um debate fundamental sobre ciência e proteção coletiva, a administração de Donald Trump anunciou na quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026, a revogação da determinação científica da EPA de 2009 — a chamada “endangerment finding” — que reconhecia a mudança climática como um perigo para a saúde pública. Para a equipe do governo, a questão é uma “fraude”; para a comunidade científica, é um retrocesso perigoso diante de evidências que somam décadas.
Estudos repetidos e robustos mostram que o aquecimento do planeta traz impactos concretos à saúde: aumento de doenças, agravamento de condições crônicas, e milhares de mortes evitáveis a cada ano. Este é um tema que exige luz e clareza — não negação.
Grande parte da regulamentação ambiental norte-americana que visa conter o aquecimento global nasceu justamente a partir da determinação de 2009 da EPA. Revogá-la não é apenas um gesto simbólico: altera a base jurídica sobre a qual políticas públicas e normas de controle de emissões foram construídas.
Em comentário para a Espresso Italia, o Dr. Howard Frumkin, médico e professor emérito de saúde pública da Universidade de Washington, resumiu com franqueza: correr atrás de revogar esta avaliação científica é como negar a gravidade — um esforço que não apaga as consequências que já iluminaram nossas cidades e nossos hospitais.
Os números confirmam a gravidade do problema. Um estudo publicado na revista JAMA intitulado “Trend dei decessi legati al caldo negli USA, 1999-2023” mostra que o total e a taxa anual de mortes por calor nos Estados Unidos mais que dobraram nas últimas décadas, passando de 1.069 em 1999 para um recorde de 2.325 em 2023. Outro trabalho, de 2021, na Nature Climate Change, analisou 732 localidades em 43 países — 210 delas nos EUA — e concluiu que mais de um terço das mortes por calor é atribuível à mudança climática causada pelo homem, o que representa mais de 9.700 óbitos por ano no mundo ligados às emissões de carvão, petróleo e gás.
Um estudo recente acrescenta dimensão regional: entre 2010 e 2023, cerca de 2,2% das mortes ocorridas no verão no Texas foram associadas às ondas de calor mais frequentes e intensas impulsionadas pelo aquecimento global. Esses dados não são abstrações — são vidas, famílias e comunidades expostas a um risco crescente.
Desde 2009, o entrelaçamento entre clima e saúde já foi tema de mais de 29.000 estudos revisados por pares, dos quais mais de 5.000 se concentram nos Estados Unidos, segundo o banco de dados PubMed. Mais de 60% dessas pesquisas foram publicadas nos últimos cinco anos, um sinal de urgência científica que ilumina a necessidade de ação imediata.
Revogar fatos científicos e minar as bases legais que protegem a coletividade é retroceder no caminho da precaução. Como curadora de progresso, digo que devemos semear políticas que protejam os mais vulneráveis e cultivar soluções que reduzam emissões, adaptem nossas cidades e fortaleçam sistemas de saúde.
A decisão administrativa de 12 de fevereiro coloca um foco renovado sobre o papel das instituições em traduzir evidências em medidas protetivas. Não se trata apenas de ideologia: trata-se de saúde pública, de justiça intergeracional e de responsabilidade diante do legado que deixaremos.
Precisamos de políticas que iluminem novos caminhos — com ciência no centro e empatia nas ações — para que as próximas décadas tenham um horizonte límpido e seguro para todos.






















