Raro peixe liocorno (Lophotus lacepede) é encontrado em Milazzo e será exibido no MuMa
Uma criatura que parece ter vindo de um relato mitológico foi encontrada encalhada na costa de Milazzo na última quinta-feira: um raro exemplar de peixe liocorno (Lophotus lacepede), espécie mesopelágica com pouquíssimas ocorrências documentadas no Mediterrâneo.
O diretor e fundador do MuMa (Museo del Mare di Milazzo), o biólogo Carmelo Isgrò, deslocou-se ao local. Apesar das tentativas de devolvê-lo ao mar, o animal não resistiu. No momento do encalhe, foi observado que o exemplar liberou jatos de um líquido denso, procedente de uma bolsa corporal — um mecanismo defensivo que lembra o comportamento de alguns moluscos cefalópodes.
Depois do resgate, o corpo foi levado à sede da Stazione Zoologica Anton Dohrn em Messina, onde o pesquisador Pietro Battaglia e a equipe iniciaram análises científicas. As primeiras observações confirmaram traços típicos da espécie: corpo alongado, em faixa que afina em direção à cauda; uma nadadeira dorsal de cor avermelhada composta por raios flexíveis; nadadeiras anal e caudal reduzidas; olhos desproporcionalmente grandes para adaptar-se à escuridão das grandes profundidades; e dentes dispostos em três fileiras, cônicos e irregulares, perfeitos para capturar pequenos organismos pelágicos.
Espécies mesopelágicas habitam a chamada «zona crepuscular», entre 200 e 1.000 metros de profundidade. Durante o dia, mantêm-se em águas profundas para escapar de predadores e, à noite, realizam migrações verticais para a superfície em busca de alimento — um ciclo que revela como os ritmos da vida marinha estão sutilmente ligados à luz e à sombra.
Segundo Isgrò, «parece saído de um conto mitológico. Continuará a contar ao público o fascínio e os mistérios dos abismos do Mediterrâneo». O MuMa anunciou que o exemplar será preparado e musealizado para exposição pública, com o objetivo de educar visitantes sobre a biodiversidade e os enigmas do Mare Nostrum.
Este achado ilumina a necessidade de conservar e estudar os ecossistemas marinhos: cada organismo que reaparece à superfície é uma janela para entender as correntes, as mudanças ambientais e os territórios ainda pouco conhecidos do oceano. A preservação e a exposição deste espécime no museu permitirão ao público semear curiosidade e responsabilidade, conectando ciência, cultura e memória natural.
O caso também ressalta a importância da colaboração entre instituições locais e centros de pesquisa, para que conhecimentos científicos sejam traduzidos em narrativas acessíveis e em ações concretas de proteção. Em tempos de desafios ambientais, momentos como este nos oferecem um horizonte límpido para refletir e agir em prol da vida marinha.
O MuMa e a Stazione Zoologica continuarão as investigações e informarão a comunidade sobre os resultados das análises. Enquanto isso, o peixe liocorno seguirá sua missão educativa: iluminar novos caminhos para que o público descubra e cuide do patrimônio vivo do Mediterrâneo.






















