Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, de forma abrupta, um dos alicerces da política ambiental norte-americana, o presidente Trump revogou formalmente a histórica conclusão do governo Obama de 2009 — conhecida como «endangerment finding» — que qualificava os gases de efeito estufa como uma ameaça à saúde pública. A decisão, formalizada pela EPA (Environmental Protection Agency), elimina a justificativa jurídica que sustentava normas federais sobre emissões de automóveis e caminhões.
Do ponto de vista jurídico e estratégico, a revogação representa um movimento decisivo no tabuleiro: ao retirar a endangerment finding, a administração transforma o cenário regulatório, abrindo caminho para a abolição de padrões de emissões que vigoravam desde 2012 e se estendiam até 2027. Na Casa Branca, o presidente definiu a medida como “a maior ação de desregulamentação na história americana”, justificando-a como um ajuste para aliviar um suposto fardo sobre a indústria automotiva e os consumidores.
Historicamente, a endangerment finding teve origem em interpretações do Clean Air Act e foi afirmada juridicamente pela Suprema Corte em 2007, quando se reconheceu que gases que aquecem o planeta podem ser tratados como poluentes atmosféricos passíveis de regulação. A determinação de 2009 do Departamento de Meio Ambiente do governo Obama consolidou que dióxido de carbono e outros gases de efeito estufa representam riscos mensuráveis ao bem‑estar público, sustentando, assim, uma arquitetura normativa para limites de emissões veiculares.
Ao revogar essa base, a administração atual elimina a obrigação federal que impunha às montadoras metas de eficiência e redução de emissões. Embora a primeira gestão Trump já tivesse enfraquecido padrões nos anos anteriores, a decisão agora anunciada é mais ampla e definitiva: retira o fundamento legal pelo qual a agência reguladora poderia impor restrições ambientais relacionadas ao clima.
Em termos de política internacional, trata‑se de um movimento de tectônica de poder — um reposicionamento que altera percepções externas sobre o compromisso dos Estados Unidos com a governação climática. A mensagem enviada às nações parceiras e aos mercados é clara: prioridades econômicas e industriais foram colocadas à frente de normas ambientais que, até então, tinham respaldo jurídico sólido.
Analiticamente, é necessário considerar as consequências de médio e longo prazo. A ausência de padrões federais obrigatórios tende a fragmentar a resposta americana ao aquecimento global, deslocando a iniciativa para estados, cidades e tribunais, ou para acordos setoriais voluntários com a indústria. Este redesenho de fronteiras invisíveis entre esfera federal e subnacional cria incertezas regulatórias que afetam investimentos, cadeias produtivas e a posição competitiva das montadoras americanas no mercado global.
Para a comunidade científica e para defensores do clima, a revogação representa um retrocesso institucional sobre a capacidade do Estado de mitigar riscos ambientais coletivos. Para setores industriais e para parcelas da política econômica, trata‑se de alívio regulatório que, segundo a administração, estimulará a produção e reduzirá custos. No xadrez das decisões estratégicas, cada peça movida altera múltiplas diagonais: a economia, a saúde pública, a diplomacia ambiental e a reputação internacional dos Estados Unidos estão todas interligadas.
Em última instância, a revogação da endangerment finding é um sinal de que as regras do jogo foram reposicionadas. Resta saber como os outros atores — tribunais, governos estaduais, corporações e parceiros internacionais — responderão a este movimento, e se surgirão novas coalizões capazes de restabelecer, por vias distintas, algum grau de governança sobre as emissões que aquecem o planeta.






















