O encontro informal dos líderes da União Europeia em Alden Biesen terminou com um compromisso formal e urgente: concluir a integração do Mercado Único até o final de 2027. A sessão consolidou metas estratégicas, entre elas a revisão das regras antitrust e a criação, em setores essenciais, de grupos empresariais europeus com escala suficiente para disputar mercado global.
O impulso por essas decisões veio em grande parte dos relatórios encomendados aos ex-premiers italianos Mario Draghi e Enrico Letta, convocados pelos 27 para atualizar as análises à luz das crescentes tensões com os Estados Unidos sob a administração Trump e com a República Popular da China. Os documentos reduziram-se a um aviso prático: sem escala e sem capital barato, a Europa perderá espaço nas cadeias globais de valor.
Draghi e Letta: integrar é fortalecer a soberania
No discurso aos líderes, Enrico Letta defendeu com veemência a passagem de fragmentação para unidade, destacando setores estratégicos como energia, telecomunicações e finanças. Para Letta, o Mercado Único representa os alicerces da soberania europeia, uma barreira eficaz contra o protecionismo e a volatilidade externa.
Mario Draghi, por sua vez, centrou-se na necessidade de investimento massivo e na velocidade de implementação. Segundo o ex-presidente do BCE, a Europa sofre de falta de escala industrial e poder de fogo financeiro; é preciso mobilizar capitais significativos e assegurar energia abundante a custos competitivos. Draghi citou a possibilidade de recorrer a um “federalismo pragmático” quando a unanimidade bloquear decisões estratégicas.
A posição da Itália
A primeira-ministra Giorgia Meloni assumiu papel de destaque, apresentando a Itália como ponte entre a robustez industrial alemã e as demandas por instrumentos de dívida comum dos países mediterrâneos. Meloni reforçou o que chamou de “motor italo-alemão” construído com o chanceler alemão, e enfatizou a agenda de desburocratização e simplificação para empresas.
Mas a prioridade clara de Roma é reduzir o custo da energia. Meloni anunciou um decreto nacional para a próxima semana e exigiu de Bruxelas uma reforma do sistema ETS para conter a especulação financeira sobre os preços de carbono. No campo do financiamento, a Itália permanece alinhada com Emmanuel Macron e Pedro Sánchez na defesa de mecanismos de dívida comum, como os Eurobond, apesar de o consenso entre os 27 ainda ser distante.
Brecha diplomática: confronto Meloni–Sánchez
O clima cooperativo foi, porém, marcado por um atrito entre Giorgia Meloni e Pedro Sánchez. O primeiro-ministro espanhol criticou o pre-cume matutino organizado por Itália, Alemanha e Bélgica — um encontro restrito que reuniu cerca de vinte países. Madrid considerou o formato excludente, interpretado por fontes espanholas como uma tentativa de formar um diretório paralelo às instituições comunitárias.
Fontes de governo de Madri disseram que a exclusão da Espanha foi recebida como um sinal político negativo. No diálogo cara a cara, a italiana minimizou o incidente, mas o episódio revela fissuras na arquitetura de consenso da UE — e evidencia que a construção da integração ainda passa por pontes frágeis entre capitais.
Conclusão: alicerces e urgências
Em Alden Biesen, os líderes europeus declararam intenção clara: acelerar a construção de um mercado único robusto, revisar as regras antitrust e fomentar campeões industriais capazes de competir globalmente. O desafio prático será transformar recomendações e boas intenções em projetos legais e financeiros que consigam vencer vetos nacionais e atritos diplomáticos. Como repórter, acompanho essa construção de direitos e responsabilidades: a caneta que selar esses acordos terá peso real sobre a vida dos cidadãos, imigrantes e empresas que dependem da certeza regulatória para investir e crescer.






















