Por Chiara Lombardi — Em um gesto que parece escrever um novo parágrafo no roteiro cultural italiano, o Presidente Sergio Mattarella recebeu no Quirinale os protagonistas do Festival de Sanremo. Para Carlo Conti, Laura Pausini e os artistas em competição, trata-se de um encontro histórico: pela primeira vez a música leve entra oficialmente no Colle, consolidando um diálogo institucional com a cultura popular.
“É obviamente uma gioia immensa, un grande onore e una grande emozione”, declarou Carlo Conti em vídeo divulgado nas redes — palavras que soam como o reconhecimento de que a canção, em seus gestos coletivos, é também um espelho do nosso tempo. A imagem do Presidente recebendo os músicos traduz um reframe simbólico: o palco e o palácio conversam, e a cultura popular se confirma como parte integrante do tecido público.
Sergio Mattarella já vinha mantendo um diálogo aberto com as manifestações populares. Em 7 de fevereiro de 2023, foi o primeiro Chefe de Estado a participar do Festival de Sanremo em pessoa; naquele momento, o Teatro Ariston ofereceu-lhe uma memorável standing ovation. Foi também a noite do Inno di Mameli entoado em coro a convite de Gianni Morandi, e do monólogo de Roberto Benigni pelos 75 anos da Constituição — um instante em que a tradição cívica e a performance pública se entrelaçaram com leveza e reverência.
O convite aos cantores para o Quirinale chega como um augúrio especial às vésperas da 76ª edição do festival, prevista no Ariston de 24 a 28 de fevereiro de 2026. Mais que cerimônia, é um gesto que atesta como o Presidente tem conseguido captar as paixões dos concidadãos — um capital de simpatia também visível em sua presença nos Jogos Olímpicos de Inverno Milano Cortina, onde Mattarella desempenhou papéis de anfitrião e testemunha afetiva.
Nas Olimpíadas, o Presidente brincou com os limites do protocolo — “posso fazer de tudo, menos apropriação indevida”, disse ao presidente do CONI, arrancando sorrisos — e encontrou atletas como a campeã Federica Brignone, a quem cumprimentou com afeto após o ouro, e dividiu almoço no Villaggio olimpico com Stefania Constantini e Amos Mosaner, bronze no curling. Pequenos episódios que, como frames de um documentário, ajudam a contar a história de uma presidência que contempla o país em suas formas culturais.
O encontro no Quirinale, portanto, não é apenas protocolo: é um gesto simbólico que reforça a ideia de que o entretenimento revela linhas de identidade coletiva. A música de Sanremo, assim, não é apenas trilha sonora da estação — é também capítulo vivo do imaginário nacional, um roteiro oculto que diz muito sobre quem somos e sobre o que escolhemos celebrar.
Enquanto nos aproximamos da semana do festival, esse abraço institucional serve de lembrete: a cultura popular pode atravessar portas históricas e transformar-se em narrativa pública. E, sobre o palco como sobre a cena política, permanece a mesma pergunta elegante e incisiva: o que nos diz, hoje, essa canção?





















