Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
A Rebecca Passler, biatleta italiana de 24 anos, foi oficialmente reintegrada à delegação que disputa os Jogos de Milano‑Cortina. A decisão da Corte Nazionale d’Appello di NADO Italia acolheu o recurso apresentado pela atleta após o exame que detectou a presença de Letrozolo em controle realizado em 26 de janeiro.
Na motivação comunicada pela FISI (Federação Italiana de Esqui), foi reconhecido o chamado fumus boni iuris — ou seja, a plausibilidade de que a ingestão da substância possa ter sido involuntária ou fruto de contaminação não intencional. Esse reconhecimento abriu caminho para que Passler voltasse a integrar a equipe, com previsão de chegada ao grupo na segunda‑feira, 16 de fevereiro.
Segundo a programação, a atleta não participará da Sprint de sábado, 14 de fevereiro, nem da prova de perseguição no domingo, 15. Sua estreia nos Jogos ocorrerá na staffetta feminina, marcada para quarta‑feira, 18 de fevereiro, quando as italianas buscam uma colocação no pódio.
O presidente da Federação, Flavio Roda, declarou que a entidade acolhe com satisfação o resultado do recurso, que permite a volta de Passler ao convívio da equipe e ao trabalho técnico antes da prova por equipes. A atleta, por sua vez, afirmou aos canais oficiais da FISI que viveu dias difíceis, reafirmou sua boa fé e agradeceu aos advogados, à federação, à família e amigos. “Agora posso finalmente voltar a me concentrar 100% no biatlo”, disse ela.
Do ponto de vista institucional e esportivo, o episódio ilustra várias tensões contemporâneas do esporte de alto rendimento: o esforço de proteção aos direitos dos atletas, a rigidez dos controles antidopagem e a complexidade de distinguir entre dolo e contaminação involuntária em um ambiente cada vez mais regulado. Para uma jovem competidora como Passler, a suspensão temporária e a subsequente absolvição provisória não são apenas um revés pessoal, mas também um teste sobre a capacidade das estruturas esportivas de oferecer suporte jurídico e científico em momentos de crise.
Na perspectiva coletiva, a reintegração reforça a importância de procedimentos céleres e transparentes. A presença de Passler na staffetta adiciona uma camada tática à seleção italiana: sua retomada influencia decisões de escalação e a estratégia para uma prova em que a profundidade do elenco pode ser determinante.
Restam perguntas práticas — sobre a janela de preparação física e mental de Passler até a prova por equipes, e sobre eventuais desenvolvimentos jurídicos futuros relacionados ao caso. Em prazo mais longo, o episódio alimenta o debate sobre prevenção de contaminações e sobre sistemas de rastreabilidade de produtos e medicamentos, especialmente em modalidades onde margens marginais podem decidir resultados olímpicos.
Em um esporte que conecta território, identidades regionais e a imagem internacional do país, a retomada de Rebecca Passler aos Jogos de Milano‑Cortina é ao mesmo tempo um alívio para a delegação italiana e um lembrete: a integridade do esporte exige não só vigilância, mas também justiça processual quando a culpa é questionada.






















