Por Chiara Lombardi — Apresentada no Ministério da Cultura, a pesquisa da Ipsos Doxa encomendada pela AIE desenha um cenário onde a pirataria não é apenas um furto econômico: é um espelho do nosso tempo, um roteiro oculto que reconfigura hábitos de leitura e estudo.
Os dados são contundentes. Em 2025, a pirataria subtraiu 722 milhões de euros em vendas do mercado do livro (excluindo o setor escolar e o export), o que equivale a 30% do mercado total. Se estendermos o cálculo ao sistema-país — somando logística, serviços e demais atividades do indutor — a perda salta para 1,95 bilhão de euros. O impacto fiscal é de 313 milhões de euros, enquanto o mercado registra uma perda direta de 4.500 empregos no setor editorial e 11.500 postos quando considerado o indutor.
Esses números, apresentados na conferência organizada por “Gli Editori” (AIE e FIEG), ganham uma camada adicional quando colocamos no mesmo quadro a proliferação da Inteligência Artificial (IA). A investigação, realizada em outubro de 2025 e abrangendo os 12 meses anteriores, aponta que 64% da população com mais de 15 anos usa ferramentas de IA. Entre os estudantes universitários, o uso sobe para 79% no auxílio aos textos de estudo; para os profissionais liberais, 55% recorrem à IA para conteúdos profissionais.
Pela primeira vez, a pesquisa quantificou o recurso a rielaborações produzidas por IA — resumos, compêndios e sintetizações de obras. Do total da população acima de 15 anos, 12% declarou ter utilizado versões reprocessadas por IA de livros de leitura, obtidas tanto por solicitações diretas ao algoritmo quanto por upload de conteúdos protegidos por direitos autorais. Entre universitários, essa prática atinge 58% para materiais de estudo; entre profissionais, 22% para conteúdos profissionais.
Os números de comportamento revelam apropriação e circulação: a taxa de satisfação com essas rielaborações supera 70%. Do ponto de vista de retenção e compartilhamento, 45% dos usuários guardam as versões geradas para livros de leitura após consultá-las e 36% as compartilham. Para materiais acadêmicos, 60% arquivam as rielaborações e 22% as distribuem; nos conteúdos profissionais, 45% guardam e 20% compartilham.
Surpreende o baixo nível de consciência legal: apenas 34% dos italianos acima de 15 anos reconhecem que carregar conteúdos protegidos por direitos autorais em sistemas de IA sem autorização é ilegal. Entre os estudantes universitários, a consciência sobe discretamente para 38%; entre profissionais, para 42%.
Apesar disso, 63% do público define a pirataria como um crime grave — o índice mais alto desde o início das pesquisas, ligeiramente acima dos anos anteriores (58% em 2023 e 61% em 2019 e 2021). A contradição entre a percepção de gravidade e a prática efetiva (uso e compartilhamento de rielaborações produzidas por IA) aponta para um dilema cultural: tecnossocialização da leitura versus marcos normativos e sustentabilidade econômica do setor editorial.
No pano de fundo, vemos o reframe da experiência leitora: a IA atua como um espelho que reflete e ao mesmo tempo redesenha maneiras de acessar, consumir e distribuir conhecimento. Para o mercado, isso significa repensar modelos de proteção de direitos, estratégias de oferta de valor e políticas educativas que resgatem a consciência jurídica e ética. Para a sociedade, é a semiótica do viral aplicada ao livro — uma transformação que exige resposta coletiva e criatividade institucional.
Em suma, a pesquisa revela que a crise editorial atual não é apenas econômica: é também cultural. A pirataria e a disseminação de IA para resumo e compilação de obras compõem o roteiro oculto de uma nova ecologia do texto — e desafiam editores, instituições e leitores a reinventarem o contrato que liga obra, autor e público.






















