Por Marco Severini, Espresso Italia
Em um movimento que reconfigura peças no tabuleiro diplomático do Oriente Médio, o presidente americano Donald Trump voltou a somar pressão sobre o Irã: ou Teerã aceita um acordo sobre seu programa nuclear nas próximas semanas ou enfrentará consequências que, segundo o mandatário, serão “muito traumáticas”. A declaração, proferida à imprensa na Casa Branca, é ao mesmo tempo um ultimato e uma tentativa de delimitar expectativas antes de possíveis negociações.
Trump também interveio no debate interno israelense ao criticar o chefe de Estado de Israel, Isaac Herzog, por não conceder clemência ao primeiro–ministro Benjamin Netanyahu. “Bibi foi um grande primeiro‑ministro em tempo de guerra”, disse o presidente dos EUA, insistindo que a não concessão da graça é “uma vergonha”. São palavras que não apenas visam proteger um aliado ideológico, mas que também reposicionam relações e lealdades em um jogo de influência transatlântico.
Do lado israelense, após o encontro bilateral em Washington, Benjamin Netanyahu transmitiu uma avaliação cautelosamente pragmática: “poderia ser possível alcançar um bom acordo“, mas apenas se o entendimento incluir, além dos controles nucleares, restrições ao sistema de mísseis balísticos do Irã e à sua rede de proxy e milícias regionais. A ênfase de Netanyahu indica que, para Tel Aviv, a segurança não se mede apenas em ogivas, mas também em vetores de projeção de poder e em atores paramilitares que alteram a geografia de ameaça.
Segundo relatos do jornalista Barak Ravid, via X, Netanyahu afirmou acreditar que as condições impostas por Trump — e o entendimento iraniano de que não repetir os erros negociais do passado — podem criar a base para termos aceitáveis. Ainda assim, reiterou seu ceticismo geral sobre a viabilidade de um pacto pleno.
Ao regressar a Jerusalém, Netanyahu teria convocado uma reunião urgente com altos responsáveis de segurança: o chefe do Estado‑Maior, o diretor do Mossad e o comandante da Força Aérea estarão entre os participantes, segundo fontes citadas pelo Canal 12. Trata‑se de uma reunião para compor uma resposta estratégica, ajustar inteligência e preparar contingências — o alinhamento de peças antes de um movimento decisivo no tabuleiro.
Do ponto de vista político‑estratégico, assistimos a uma tentativa de redesenho de fronteiras invisíveis: Washington tenta concentrar pressão diplomática e narrativa, Tel Aviv condiciona qualquer acordo a salvaguardas regionais, e Teerã permanece no centro de uma tectônica de poder cujo desfecho afetará correntes de influência em várias capitais. Em suma, a negociação anunciada é menos um tratado técnico do que um acordo de equilíbrio — que deve, necessariamente, considerar engrenagens militares, redes de patronagem e a cartografia das lealdades regionais.
Se há algo a observar com rigor é a interação entre retórica e capacidade de coerção: palavras como “consequências traumáticas” são jogadas no tabuleiro para influenciar escolhas, mas o sucesso dependerá da convergência de diplomacia, inteligência e, sobretudo, da vontade política das partes interessadas. Permanecemos, portanto, diante de um momento decisivo, onde as fundações da diplomacia exigirão ajustes precisos para evitar rupturas maiores.
Marco Severini
Analista sênior de geopolítica, Espresso Italia






















