Apuração in loco e cruzamento de dados. Em uma investigação descrita como a análise mais abrangente já realizada sobre o tema, pesquisadores do Silent Spring Institute dos Estados Unidos detectaram dezenas de substâncias perigosas em materiais usados para extensões de cabelo, incluindo produtos artificiais e de origem humana. O estudo, publicado na revista Environment & Health, da American Chemical Society, apresenta evidências robustas sobre potenciais riscos à saúde associados a esses produtos.
Financiado por um Beauty Justice Grant do Environmental Defense Fund e por doações ao Silent Spring Institute, o trabalho avaliou a composição química de materiais empregados em tranças, próteses capilares e extensões. Os autores identificaram compostos ligados a câncer, desregulação hormonal, problemas de desenvolvimento e efeitos sobre o sistema imunológico. Entre as substâncias detectadas estão retardantes de chama, ftalatos, pesticidas, estireno, tetracloroetano e compostos organoestânicos.
Segundo a equipe, essa descoberta é particularemente preocupante nos Estados Unidos porque, ao contrário da União Europeia, muitos desses químicos permanecem pouco regulados no mercado norte-americano. ‘Embora estudos anteriores tenham apontado a presença de alguns compostos preocupantes, faltava um panorama mais completo da composição química desses produtos. Queríamos quantificar a dimensão do problema’, afirmou Elissia Franklin, autora principal do estudo.
Franklin comprou 43 produtos de venda popular, adquiridos online e em lojas físicas, para análise laboratorial. Os itens incluíam tanto fibras sintéticas quanto cabelos humanos tratados. Os pesquisadores ressaltam que as extensões são frequentemente processadas com aditivos para torná-las ignífugas, impermeáveis ou antimicrobianas — tratamentos cujos compostos raramente são divulgados pelas fabricantes. Essa falta de transparência deixa consumidoras sem informação sobre possíveis riscos associados ao uso prolongado.
O modo de exposição é direto: as fibras depositam-se no couro cabeludo e no pescoço, e, quando aquecidas ou modeladas com ferramentas térmicas, podem liberar compostos voláteis que a pessoa inala. Há, portanto, vias de contato cutâneo, inalatória e potencial transferência durante a manipulação e aplicação das peças.
O estudo chama atenção para a dimensão demográfica do problema: mais de 70% das mulheres negras relataram ter usado extensões de cabelo ao menos uma vez no último ano, enquanto a proporção em outros grupos étnicos fica abaixo de 10%. Esse padrão aponta para uma carga ambiental e ocupacional desigual, já que a indústria relacionada a extensões e apliques movimenta cifras significativas — previsões indicam que o mercado ultrapassará 14 bilhões de dólares até 2028, com os Estados Unidos na liderança das importações globais.
Da perspectiva técnica, os autores destacam que muitas das substâncias encontradas estão associadas a efeitos adversos crônicos: agentes com potencial carcinogênico, disruptores endócrinos que afetam hormônios sexuais e tiroideanos, compostos que interferem no desenvolvimento fetal e outros que modulam a resposta imune. Esses riscos tornam urgente uma avaliação regulatória mais rigorosa e estudos toxicológicos complementares para mensurar exposições reais em usuárias de extensões.
Em linguagem direta, os pesquisadores defendem que a indústria não deve impor às consumidoras, especialmente às mulheres negras, a escolha entre expressão cultural ou conveniência e o direito básico à saúde. A recomendação inclui maior transparência por parte das fabricantes sobre os tratamentos químicos aplicados às fibras, fiscalização regulatória e campanhas informativas orientadas por evidências.
Este levantamento técnico entrega ao debate público o que os autores qualificam como a prova mais sólida até hoje dos potenciais danos associados a extensões de cabelo. O trabalho delineia um cenário de exposição ambiental desigual e fornece bases para políticas públicas e pesquisas futuras que busquem reduzir riscos e proteger populações mais expostas.






















