Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
A vitória de Federica Brignone no Super-G de Milano Cortina 2026 não é apenas um episódio de superação individual; é o resultado de uma cadeia de decisões médicas, trabalho metódico e de uma cultura desportiva que sabe gerir riscos. A conquista da medalha de ouro ganhou contornos quase míticos porque se apoiou num percurso de recuperação que começou há dez meses, após uma lesão grave.
Ao lado da campeã, desde a sala de operações até o pódio, esteve o cirurgião ortopédico Andrea Panzeri, presidente da Comissão Médica da FISI. Panzeri acompanhou cada etapa: a fratura cominutiva e deslocada do platô tibial e da cabeça da fíbula da perna esquerda, as intervenções cirúrgicas e a reabilitação cuidadosa que permitiu a atleta voltar ao mais alto nível.
“Surpreso? Sim e não — disse Panzeri ao Adnkronos Salute. Víamos nas primeiras saídas que ela respondia bem e que ‘tinha as pernas’ para surpreender”.
É preciso sublinhar que a palavra surpresa aqui não traduza improviso. A recuperação de Brignone foi pautada por bases científicas, testes contínuos e decisões cirúrgicas tomadas com precisão de timing. Segundo Panzeri, foi especialmente o segundo procedimento que representou a virada: uma escolha cirúrgica acertada, no momento correto, que habilitou a campeã a reentrar na rotina de treinos e competições.
Do ponto de vista institucional e humano, o caso expõe três lições. Primeiro, que a alta performance exige sistemas médicos preparados e ousados o suficiente para tomar riscos calculados. Segundo, que a confiança mútua entre atleta e equipe — cirurgiões, fisioterapeutas e treinadores — é um capital tão vital quanto a condição física. Terceiro, que o desporto moderno continua sendo um laboratório onde ciência e vontade pessoal se cruzam.
Panzeri enumera os elementos que sustentaram a recuperação: “Concentração nos objetivos, bases científicas, testes, empenho e trabalho”. A colocação sintetiza a visão pragmática que permitiu transformar uma sequência de infortúnios em um triunfo paradigmático para o esqui italiano.
Para a memória esportiva da Itália, o ouro de Federica Brignone é mais do que uma medalha: é a narrativa de uma engenharia clínica aplicada ao alto rendimento e de uma atleta que, sem dramatizar suas limitações, trabalhou dia após dia com paciência e precisão. Em Milano Cortina, o resultado em pista reverbera no corredor das salas de recuperação e nos consultórios, lembrando que, por trás de cada pódio, há uma pequena revolução técnica e humana.
Hoje, celebramos o triunfo. Mas é útil também olhar adiante: as escolhas que deram certo agora estabelecem protocolos e referências para como tratar e reinserir atletas de elite após lesões complexas. A lição permanece — o esporte é uma tessitura de decisões médicas, disciplina individual e, fundamentalmente, confiança mútua.





















