Por Otávio Marchesini – Espresso Italia
Nos primeiros quatro dias completos de competições, além dos dois dias que precederam a cerimônia de abertura, a Warner Bros. Discovery constatou um aumento relevante no consumo de conteúdos relacionados aos Jogos de Milano Cortina 2026 por toda a Europa. Em comunicado oficial, a empresa afirma que a cobertura olímpica está sendo consumida em quantidade superior à registrada nas edições anteriores dos Jogos de Inverno.
Os números divulgados apontam que, considerando todos os canais e serviços da plataforma, já foram transmitidas mais de um terço a mais de horas de conteúdo (+39% em comparação com Pequim 2022, na mesma fase). O salto é ainda mais expressivo quando se observa o universo do streaming: em HBO Max e discovery+, as horas totais visualizadas cresceram 102% em relação a Pequim.
Segundo a nota, esse crescimento em três dígitos nas horas consumidas no streaming foi apresentado de forma consistente em vários mercados-chaves: França, Alemanha, Itália (particularmente em HBO Max) e Reino Unido (com desempenho robusto no discovery+). Ainda que a comunicação da empresa não detalhe números absolutos de audiência ou assinantes, ressalta-se que o número de assinantes que acompanharam conteúdos de Milano-Cortina 2026 registrou um aumento significativo frente às edições anteriores.
Do ponto de vista editorial e de mercado, os dados confirmam uma tendência que vinha se consolidando: a migração do espectador esportivo para plataformas digitais. Para além do acréscimo de consumo, esse comportamento revela mudanças na forma como o evento olímpico é apropriado pelas audiências — menos como um acontecimento linear transmitido por horários fixos e mais como um catálogo de experiências sob demanda, acessível por múltiplos dispositivos e formatos.
Há também implicações estratégicas claras para federações e detentores de direitos. O crescimento acentuado do streaming exige investimentos em produção, curadoria de conteúdo e tecnologia para garantir qualidade de transmissão, adaptação a diferentes fusos e personalização por mercado. Para um país como a Itália, anfitrião cultural do evento, a convergência entre tradição televisiva e inovação digital é um teste de capacidade institucional: estádios e pistas continuam sendo palcos físicos de memória, mas a transmissão digital passa a ser o lugar onde a memória se amplia e se fragmenta em micro-experiências.
Em termos simbólicos, a performance da Warner Bros. Discovery em Milano Cortina sublinha a centralidade do streaming no futuro do jornalismo esportivo. Os Jogos permanecem um catalisador de transformações: não apenas pela lógica das competições, mas por como essas competições são incorporadas ao cotidiano do público europeu. O desafio, daqui para frente, será equilibrar escala e profundidade — alcançar audiência massiva sem perder a qualidade narrativa que confere sentido cultural ao evento.
Enquanto os resultados esportivos desenham rankings e pódios, os dados de audiência redesenham hierarquias de poder na indústria da mídia. A observação não é neutra: acompanha mudanças na economia da atenção, nas estratégias de monetização e na construção de memória coletiva em torno do esporte. Milano Cortina 2026, nesse sentido, já aponta para um novo capítulo onde o streaming não é apenas um canal alternativo, mas sim um espaço central de apropriação olímpica.





















