Em Cortina d’Ampezzo, a vitória de Federica Brignone no Super-G ganhou forma simbólica: um inflável em forma de tigre decorou a Casa Italia do CONI, transformando o quartel-general italiano num palco de celebração e de sentido coletivo.
A presença do inflável — referência direta ao apelido de Brignone, a ‘Tigre delle Nevi’ — não é um gesto anódino. Em tempos de jogos que são simultaneamente arena esportiva e vitrine de identidades nacionais, pequenos símbolos visuais ajudam a construir narrativas que reverberam além do pódio: dignificam trajetórias pessoais, reforçam laços regionais e oferecem à cidade anfitriã uma imagem que ficará na memória coletiva.
No local também estavam o irmão e treinador Davide Brignone, figura central na carreira da atleta, e a companheira de equipe Sofia Goggia, que infelizmente não completou a prova após ter perdido uma porta e sair da pista. O contraste entre o êxito solene de Federica e a frustração de Goggia é parte do mesmo painel: o alpino feminino italiano atravessa um momento de protagonismo, mas permanece vulnerável às contingências que um traçado técnico e as condições climáticas impõem.
Como repórter e analista, é preciso olhar para além do objeto celebratório. A exibição da tigre em Casa Italia é também um gesto de afirmação simbólica de um país que, em Cortina, busca renovar tradições, projetar competidores — e, por extensão, narrativas regionais — no contexto de uma Olimpíada que mistura memória montanhosa e políticas de visibilidade.
O triunfo de Brignone no Super-G não é apenas um resultado esportivo; é a convergência de décadas de formação, de escolhas técnicas e de um projeto institucional que passa por clubes, treinadores e por uma estrutura de apoio como a do CONI. Para Cortina, cidade que vive e respira alpino, a comemoração cotidiana — das bandeiras às conversas nas praças — reflete uma relação histórica entre território e esporte.
Ao mesmo tempo, a saída de Sofia Goggia lembra que a alpina é um esporte de margens finas: um único erro pode apagar meses de preparação. Essa tensão entre glória e risco é o que torna a cena do inflável tão eloqüente: celebra-se o triunfo, mas reconhece-se a precariedade sobre a qual ele se ergue.
Em suma, a tigre inflável em Casa Italia é um ícone temporário com carga duradoura. Marca um momento de festa para Federica Brignone, ilumina as relações institucionais do esporte italiano e reitera Cortina como palimpsesto onde se sobrepõem memória, território e o presente competitivo.





















