Wim Wenders, aos oitenta anos e atuando como presidente da júri da Berlinale, lançou um apelo que soa como um manifesto: que a arte funcione como contrapeso à política, e que os festivais não se convertam em espaço de propaganda política. Na cerimônia de abertura do festival — reconhecido entre os grandes como um dos mais politizados — o veterano cineasta recordou que “o cinema pode mudar o mundo”, mas insistiu que isso não significa transformar a tela em campo de batalha partidário.
Essa posição do diretor alemão é coerente com sua trajetória, marcada por um clássico compromisso com a prioridade estética e humana do fazer cinematográfico. Seu último filme, Perfect Days, foi citado como exemplo de como a arte pode oferecer reflexões profundas sem se submeter a slogans. A fala de Wenders funciona aqui como um convite à responsabilidade: o filme como espelho do nosso tempo, o roteiro oculto da sociedade que, ao mostrar, também interroga.
Noite de abertura e desdobramentos. A sessão inaugural exibiu fora de competição No Good Man (Non ci sono brav’uomini), da diretora afegã Shahrbanoo Sadat. Apresentada como uma comédia romântica que se desdobra em crônica dramática — ou talvez o inverso — a película acompanha uma operadora de televisão na Cabul de 2021, momento que antecedeu a retirada americana e a retomada do poder pelos talibãs. Filmado na Alemanha por razões práticas, o longa funciona como um ato de acusação contra o Ocidente que deixou uma nação vulnerável, mas também como um estudo sobre a resiliência feminina: mulheres que lutam por direitos num cenário de retrocesso.
Se a tela denuncia o abandono político, ela também ilumina narrativas de resistência; a protagonista do filme, ao contar às amigas sobre a existência de “alguns homens de bem”, oferece um pequeno reframe da realidade — uma faísca de esperança num cenário sombrio.
Momento de homenagem. A diretora da Berlinale, Tricia Tuttle, concedeu o Urso de Ouro de Honra à atriz Michelle Yeoh, que conquistou o Oscar de melhor atriz em 2023 por Everything Everywhere All at Once. A justificativa foi a carreira que atravessa fronteiras geográficas, linguísticas e genéricas — da Bond girl a heroína marcial, de papéis em grandes franquias a interpretações que desafiam convenções. Yeoh personifica a semiótica do viral: uma artista cujo percurso reflete as transformações globais do cinema.
O panorama do festival é, conforme descrevem os corredores, de surpresa — especialmente pela escassa presença italiana, reduzida a breves bandeiras: Tizza Crovi co-dirige o filme austríaco The Loneliest Man in Town e há uma coprodução, Rosebush Pruning, vagamente inspirada em Pugni in tasca. Entre os títulos que despertam expectativas estão At the Sea (Kornél Mundruczó), sobre uma mulher retornando à casa após desintoxicação; Everybody Digs Bill Evans (Grant Gee), que investiga um momento crítico na vida do célebre pianista; e Home Stories (Eva Trobisch), sobre buscas identitárias na ex-Alemanha Oriental.
Há também a programação não competitiva, a Berlinale Special, onde a curadoria aposta em propostas que dialogam com o presente sem a pressão do prêmio. Em seu conjunto, o festival se mostra um palco onde o conflito entre arte e política volta a ser discutido: não como dicotomia, mas como tensões produtivas. Como observadora cultural, eu diria que a Berlinale hoje funciona como um espelho do nosso tempo — um cenário de transformação onde cada filme é tanto testemunho quanto argumento.
Se a mensagem de Wim Wenders ecoa na Potsdamer Platz, ela não é um apelo ao silêncio político, mas uma reivindicação de que a política seja interrogada pela arte e não instrumentalizada por ela. O festival, portanto, reafirma seu papel de instigador: mostrar, provocar e convidar o espectador a olhar além da superfície.






















