As Olimpíadas de Milão-Cortina abriram-se num palco profundamente associado ao futebol: o San Siro. Não é acaso que, enquanto as façanhas dos atletas azzurri ecoam pelos telões e redes, também ressoem referências a clubes e identidades locais. O esporte, aqui, não é só resultado; é memória coletiva, pertença regional e narrativa pessoal.
Um dos casos mais emblemáticos é o da bergamasca Sofia Goggia, conhecida tanto por sua classe na neve quanto pela fidelidade ao Atalanta. A ligação é antiga e pessoal: Goggia mantém relação de amizade com Gian Piero Gasperini, agora à frente da Roma, que mesmo depois da mudança não deixou de lhe enviar mensagens de incentivo — não por acaso comentou com admiração o bronze conquistado por Goggia na prova livre.
Outra campeã cujo amor clubístico chama atenção é Francesca Lollobrigida, natural de Frascati. Recentemente, Lollobrigida ergueu o ouro nos 3.000 metros do patinagem de velocidade, batendo recorde olímpico — e o seu coração futebolístico pertence à Roma.
O vínculo entre neve, gelo e as cores de Milão e do futebol milanês também aparece em destaque. A valdostana Federica Brignone, ouro no Super-G, é declaradamente torcedora do Milan, tendo crescido idolatrando jogadores como Nesta e Gattuso. Entre os rossoneri figura também o descesista de Merano Dominik Paris e o patinador romano Matteo Rizzo, medalha de bronze no Team Event.
Do outro lado da cidade, o preto e azul do Inter tem lugar nas arquibancadas de atletas como a valtellinesa Arianna Fontana. Com doze medalhas olímpicas, Fontana mantém a rotina de ir ao estádio com a família para seguir a Beneamata. Também interista é o trentino Amos Mosaner, figura-chave do curling e bronze no duplo misto; sua primeira camisa marcante foi a de Ronaldo Fenômeno, presenteada pelo primo.
Não menos representativo é o grupamento de torcedores da Juventus entre os esportes de inverno. O fondista Federico Pellegrino é reconhecido torcedor bianconero: ao conquistar a Copa do Mundo de sprint, depositou o troféu no museu do Juventus Stadium. A paixão pela Vecchia Signora também anima a biatleta Lisa Vittozzi, prata na estafeta, e o bobbista Lorenzo Bilotti.
Mais do que anedotas, essas preferências revelam como o futebol permanece matriz identitária na Itália contemporânea. Clubes não são apenas marcas: são redes de sociabilidade, símbolos regionais e nomes que acompanham atletas desde a infância até o palco olímpico. Em um país onde cidade e clube se entrelaçam, as Olimpíadas funcionam como lente para observar essa continuidade.
Enquanto as medalhas são contadas, também se contam histórias que conectam estádios, pistas e pistas de gelo. As bandeiras que tremulam nas arquibancadas — e nas conversas dos atletas — dizem tanto ao observador atento quanto os tempos e as pontuações: são traços de uma identidade coletiva que o esporte ajuda a construir e conservar.






















