Em um castelo nas Fiandes, sob chuva persistente, os 27 chefes de Estado e de Governo da União Europeia reuniram-se para um retiro informal destinado a redesenhar a agenda da competitividade europeia. A iniciativa, impulsionada pela presidência do Conselho Europeu, reuniu previamente um pre-vertice convocado por Itália, Alemanha e Bélgica, com a participação de 19 países, sinalizando uma nova prática diplomática que promete se repetir antes do Conselho Europeu de março.
O encontro em Alden Biesen foi, mais do que um acerto de agendas, um movimento no tabuleiro para mitigar a fragmentação de decisões que frequentemente paralisa a União. Na leitura dos líderes, choques recentes — como os dazis dos Estados Unidos e outras turbulências geopolíticas — empurraram a Europa para uma postura reativa, e agora impõem a necessidade de uma ação coordenada e célere.
Há, na sala, a percepção de um reforço da cooperação bilateral entre Itália e Alemanha, que, nas palavras da primeira-ministra Giorgia Meloni, funcionam como um “motor” para iniciativas comuns. Meloni foi explícita ao afirmar que o aprofundamento deste eixo germano-italiano não se configura como um movimento contra terceiros: “Estamos fortalecendo nossa cooperação bilateral, mas não é algo feito contra alguém ou excluindo alguém”. Essa cautela diplomática busca preservar coesão política enquanto se testam arranjos pragmáticos de governança.
Os trabalhos do retiro partirão de documentos já apresentados: o relatório sobre o mercado único por Enrico Letta e o estudo sobre competitividade assinado por Mario Draghi, que recentemente propôs em Lovaina a transformação da UE em uma “federation pragmática”. Ambos os ex-premiers foram convidados a expor suas análises, com um apelo conjunto para uma agenda simples e ambiciosa capaz de completar e relançar o mercado único até 2028.
Na ponta prática das discussões, a prioridade dos 27 é o custo da energia, considerado um fator estrutural que penaliza a indústria europeia. Meloni anunciou que, em nome da Itália, concentrará esforços na questão dos preços da energia e adiantou a intenção de apresentar “uma medida muito articulada”. Contudo, sublinhou que respostas nacionais são insuficientes se os entraves a nível europeu não forem removidos.
Outro consenso emergente é a urgência da simplificação de procedimentos: a burocracia — lenta e complexa — é vista como uma fragilidade que impede respostas rápidas às crises. O primeiro-ministro belga, Bart De Wever, alertou sobre uma situação industrial à beira de uma “crise existencial” em seu país, em um aviso que ecoa entre os líderes como um chamado à ação imediata.
Em termos estratégicos, o retiro funciona como um ensaio de arquitetos políticos: desenhar alicerces que aguentem os choques externos, ao mesmo tempo em que se preserva a ampla tapeçaria de interesses nacionais. A prática dos pre-vertici — encontros preparatórios mais amplos — expressa a vontade de costurar maior eficácia decisória sem rupturas visíveis no panorama diplomático. Se o objetivo é completar o mercado único até 2028, as próximas semanas serão decisivas para transformar intenções em movimentos concretos no grande tabuleiro da técnica de poder europeia.
Como analista, vejo este encontro como um sinal de que a tectônica de poder europeia está em mutação: não mais confinada a eixos tradicionais, mas procurando coalizões pragmáticas que permitam resposta coordenada e veloz. A pergunta que permanece é se essas coalizões terão a capacidade institucional de traduzir consensos em políticas operacionais antes que os desafios externos tornem a janela de oportunidade infrutífera.





















