Por Marco Severini — A Suíça está prestes a confrontar um movimento que, se aprovado, redesenharia um dos limites invisíveis da sua política migratória e econômica. O governo helvético confirmou que, em 10 de junho, os eleitores vão às urnas para decidir sobre a iniciativa do Partido Democrático Suíço (UDC) denominada “Não a uma Suíça de 10 milhões”. A proposta, fortemente rechaçada pelas duas câmaras do Parlamento e pelo setor empresarial, pode provocar sérios efeitos colaterais nos alicerces da diplomacia econômica do país.
A iniciativa obriga Executivo e Parlamento a reagirem se a população permanente, hoje em cerca de 9,1 milhões, superar 9,5 milhões — impondo a negativa de entrada a novos chegados, inclusive requentes solicitantes de asilo e familiares de residentes estrangeiros. Se a população atingir 10 milhões, entrarão em vigor restrições adicionais e, caso os números não comecem a cair, o governo seria compelido a romper o acordo de livre circulação com a União Europeia, parceiro comercial essencial da Suíça.
Em termos demográficos e econômicos trata-se de um teste estratégico: na última década a população suíça cresceu cerca de cinco vezes mais rápido do que a média dos estados da UE vizinhos, fruto tanto do apelo por mão de obra menos qualificada quanto da atração de expatriados bem remunerados. Segundo dados oficiais, quase 27% dos residentes não possuem cidadania suíça.
O UDC, maior partido do país desde 1999, denuncia uma suposta “explosão demográfica” que inflacionaria aluguéis e pressionaria infraestruturas e serviços públicos. Historicamente, o partido recorre à democracia direta como instrumento de pressão, apresentando iniciativas que incluem propostas radicais — da expulsão automática de imigrantes condenados por crimes (2016) ao fim da livre circulação com a UE (2020). Apesar da frequência, apenas uma fração reduzida dessas iniciativas é aprovada: o processo exige 100.000 assinaturas em 18 meses para levar um texto a referendo, e apenas cerca de 10% das propostas alcançam êxito.
O cenário político-econômico, no entanto, recomenda cautela. Um levantamento de dezembro mostrava 48% de apoio à proposta “Não a uma Suíça de 10 milhões”, revelando um país dividido sobre o grau de abertura que deseja manter num mundo em rápida transformação. Entre os opositores estão multinacionais e atores-chave do setor financeiro — Roche, UBS, Nestlé — e organizações empresariais como a Economiesuisse, que alertam para o risco de a iniciativa comprometer acordos bilaterais cruciais com a UE, inclusive o recente entendimento sobre o acesso ao mercado único, pilar da prosperidade suíça.
Os críticos argumentam que a aprovação poderia paralisar cadeias de abastecimento, restringir o acesso a talento especializado e diminuir a previsibilidade jurídica nas relações com a União Europeia, já em estado de frágil negociação. Em termos estratégicos, seria um movimento de alto impacto no tabuleiro: retirar a liberdade de circulação equivale a cortar um corredor de exportações e serviços que mantém a economia suíça integrada ao mercado europeu.
Do ponto de vista institucional, a medida coloca o governo num dilema de Realpolitik. A adoção de limitações duras sobre imigração e reunificação familiar pode atender a demandas domésticas por controle, mas arrisca provocar retaliações ou revisões contratuais por parte de parceiros europeus. Em suma, trata-se de um cálculo de equilíbrio entre soberania percebida e interdependência efetiva — uma jogada cujo impacto atravessará décadas.
Enquanto o país se prepara para o referendo de 10 de junho, os olhos de investidores, empresas e capitais políticos estarão voltados para a Suíça. Este não é apenas um plebiscito sobre números demográficos, mas um teste sobre a capacidade suíça de conciliar identidade, prosperidade e os limites dos acordos internacionais que sustentam seu modelo econômico.






















