Por Chiara Lombardi — No salão televisivo de Caterina Balivo, a apresentadora Enrica Bonaccorti desenhou um retrato sincero e contido da sua trajetória: da televisão dos bastidores às memórias que ainda pesam e iluminam. Ao ser questionada sobre seu estado de saúde — depois do diagnóstico de tumor no pâncreas, anunciado em setembro passado — Bonaccorti resumiu com a franqueza de quem domina o próprio roteiro: “Eu digo para mim mesma. Como estou? Estou bem”. Sem detalhes clínicos, a afirmação foi ao mesmo tempo conforto e resistência.
A conversa mergulhou nas origens profissionais: o resgate do período em Pronto, chi gioca?, a gravidez anunciada ao vivo e o aborto espontâneo em novembro de 1986, aos quatro meses. Foi ali, durante aquele intervalo dramático da sua vida, que Giancarlo Magalli — presente também no estúdio — entrou como substituto na apresentação, um gesto que acabou por desencadear a sua própria carreira. Bonaccorti definiu Magalli com afeto quase familiar: o “filho que não teve”. A memória, nesses relatos, funciona como um espelho do tempo que revela tanto riscos quanto reconstituições afetivas.
O episódio trouxe também um fragmento dos anos 1990: Non è la Rai, programa que se tornou símbolo daquela virada midiática. Em estúdio, Antonella Elia — parceira de trabalho entre 1991 e 1992 — ouviu Bonaccorti confessar, com bom humor ácido, que “não me caía muito simpática”, embora reconhecesse o valor profissional da colega. “Era só um pouco vaga, tinha características que me irritavam um pouco”, disse, entre risos. O tom foi de alfinetada inspirada: não intriga gratuita, mas um pequeno gesto semiótico que delimita afinidades e distâncias no set.
A memória afetiva também ganhou espaço. Bonaccorti falou, emocionada, da mãe Titti, falecida em 2003, e do vínculo protetor com a filha Verdiana: “Ela não me deixa sozinha nem por um momento”. A apresentadora admitiu arrependimentos íntimos, aquelas cenas omitidas do filme pessoal — não ter ido buscar a filha à escola por compromissos de trabalho, pequenos cortes na rotina que agora reaparecem como remendos desejados.
No presente, Bonaccorti se ocupa escrevendo sua autobiografia. “Escrever me preenche a vida de forma maravilhosa”, contou, acrescentando que omite nomes por escolha ética: há capítulos que pertencem apenas ao recorte da memória, não ao tabloide. Essa opção editorial reforça a ideia de que o entretenimento é também um território de decisões morais sobre o que contar.
Houve ainda um momento leve, quase cinematográfico, quando a apresentadora cometeu uma gafe de curiosidade cultural: diante de um vídeo sobre Rocío Muñoz Morales e o suposto romance com Andrea Iannone, Bonaccorti alegou desconhecimento. Confessou não reconhecer Iannone e imaginou que Morales ainda estivesse com Raoul Bova — “Ignorante, desculpem”, brincou. Terminou, contudo, com uma nota íntima: “Mas sei tudo sobre a vida do Magalli”.
Mais do que anedotas, a participação no programa foi um comentário sobre memória pública e privacidade, sobre como as estrelas reescrevem suas narrativas sob o olhar do público. Em termos culturais, é o roteiro oculto da sociedade que se revela: entre a autobiografia em construção e as breves provocações em estúdio, Enrica Bonaccorti oferece um reframe da realidade — elegância, ironia e uma honestidade que funciona como espelho para o nosso tempo.






















