Por Chiara Lombardi — Em um movimento que parece um quadro restaurado voltando à luz, Marlene Kuntz reacende o fôlego de um disco que ajudou a redesenhar a paisagem do rock italiano. Para os 30 anos de Il Vile, a banda anuncia uma reedição deluxe em vinil colorido, edição limitada, acompanhada de um tour por clubes selecionados, devolvendo ao palco a densidade sonora e a carga emocional daquele momento fundador de 1996.
A nova edição é um objeto pensado como experiência total: capa ilustrada por Alessandro Baronciani, um livreto em estilo quadrinho de 16 páginas e três postcards com detalhes das artes — um relicário para quem viveu o disco e um convite tátil para as novas gerações entenderem por que, naquele ano, a cena alternativa italiana pareceu ganhar novos contornos.
Em conversas com a imprensa, o vocalista Cristiano Godano e o guitarrista Riccardo Tesio revisitaram o processo criativo e o contexto em que o álbum nasceu. Tesio recorda que, depois da efervescência do primeiro disco, eles buscaram um som mais compacto e monolítico: enquanto Catartica era uma coleção construída ao longo de anos, Il Vile surge como uma fotografia concentrada de um preciso estado de espírito — uma arquitetura sonora escura que preserva poucos clarões.
Os temas do disco — inquietude, fragilidade juvenil, raiva e desilusão — mantêm uma estranha atualidade. Na reescuta, constataram que a coerência do timbre e a intenção dramática das canções ainda funcionam como um espelho do nosso tempo: o álbum não é apenas memória, é um roteiro oculto que continua a falar com quem atravessa incertezas sociais e pessoais. É como se a semiótica do viral tivesse encontrado, naquele arranjo de guitarras e silêncios, um eco cultural que perdura.
O retorno aos palcos em formato club reafirma uma crença simples e resistente: a música é experiência vivida. A escolha dos locais não é mero saudosismo — é política cultural. Em suas reflexões, a banda confronta os dilemas da cena atual: crise dos espaços ao vivo, a transformação imposta pelo streaming, o festivalismo concentrado (com menção ao circuito de grande visibilidade como o de Sanremo) e, de modo prático, os preços que têm afastado plateias. Esse panorama, para Marlene Kuntz, exige respostas artísticas que preservem a intensidade do encontro entre público e música.
Reeditar Il Vile em vinil colorido e levar o disco inteiro de volta aos palcos é também um gesto de resistência simbólica: reafirma o valor do objeto físico, da apreciação atenta e do ritual do concerto. É um convite para que ouvintes acostumados ao consumo fragmentado voltem a experimentar o álbum como obra total — uma narrativa que se desdobra e que, trinta anos depois, ainda surpreende pela coragem de suas escolhas textuais e sonoras.
Para quem chegou depois, o tour promete ser a melhor introdução. Para quem viveu o impacto em 1996, é a oportunidade de revisitar um território emocional que moldou uma geração. Em ambos os casos, o que se propõe é um reencontro com a intensidade: a banda não pretende encenar nostalgia fácil, mas oferecer o upgrade que o disco merece — com arte, cuidado e o calor da performance ao vivo.
No roteiro que a Marlene Kuntz escreve para 2026, Il Vile reaparece não apenas como relíquia, mas como espelho do presente. A edição limitada e o circuito de clubes são capítulos de um mesmo propósito: manter viva a chama de uma música que foi, e continua sendo, trama e reflexo do nosso tempo. E, nas palavras implícitas desse movimento, a promessa é simples e obstinada: tocar enquanto houver razões para tocar.





















