Por Marco Severini — Em novo capítulo da tensão diplomática que remapeia a legitimidade das vozes nas Nações Unidas, Alemanha e França solicitaram formalmente a demissão de Francesca Albanese, a relatora especial da ONU para os Territórios Palestinos, após declarações nas quais teria qualificado Israel como um “inimigo comum da humanidade”. As palavras surgiram em um evento público acompanhado por um dirigente do Hamas e pelo ministro das Relações Exteriores do Irã, o que agravou a percepção de parcialidade.
O pedido de Berlim foi expresso pelo ministro das Relações Exteriores alemão, Johann Wadephul, em mensagem publicada na plataforma X. Wadephul registrou que a senhora Albanese já teria cometido, no passado, “numerosas saídas fora de lugar” e declarou: “Condanno le sue recenti dichiarazioni su Israele: non può ricoprire questo incarico” — afirmando, de forma inequívoca, que não reúne condições para manter o mandato.
Horas antes, Paris — membro permanente do Conselho de Segurança — havia se manifestado de maneira igualmente incisiva. O ministro francês Jean-Noël Barrot qualificou as declarações de “ultrajantes e culpáveis”, insistindo que a crítica ao governo de um Estado difere radicalmente da acusação dirigida ao conjunto de um povo e de uma nação. Barrot citou uma sequência de posições anteriores atribuídas à relatora, incluindo afirmações que teriam minimizado ou justificado os ataques de 7 de outubro — descritos por ele como “o pior massacre antissemita desde o Holocausto” — além de referências controversas à “lobby judaica” e comparações entre Israel e o Terceiro Reich.
No Parlamento francês, a deputada Caroline Yadan e outros parlamentares haviam já solicitado a destituição de Albanese, qualificando sua retórica como “demonizadora” com raízes antissemitas profundas. Yadan lembrou que um mandato da ONU exige imparcialidade, moderação e sentido de responsabilidade, não se podendo transformar numa plataforma para posições radicais que corroam a credibilidade institucional.
Paris anunciou que apresentará o pedido formal de demissão durante a próxima sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU, marcada para 23 de fevereiro. A iniciativa franco-alemã confirma um alinhamento diplomático que visa preservar os alicerces normativos do sistema multilateral perante episódios que, em visão dos criticantes, fragilizam a isenção exigida de especialistas nomeados pelo organismo.
Do ponto de vista geopolítico, o movimento conjunto de França e Alemanha é um movimento calculado no tabuleiro da diplomacia: não se trata apenas de punir uma declaração imprudente, mas de reafirmar as regras de conduta que dão sustentação à autoridade técnica da ONU. Em termos estratégicos, uma relatoria percebida como ativista compromete a capacidade do sistema de mediar crises e preservar a causa — aqui, a causa palestina — que pretende proteger. É, em suma, uma tentativa de evitar que a tectônica de poder se redesenhe por via da narrativa, e não por vias institucionais.
O desfecho dependerá agora das deliberações no Conselho e da capacidade da comunidade internacional de conjugar exigência de imparcialidade com a necessidade de abordar as violências em curso. A solução mais plausível, à vista dos fatos e das pressões, é que Bruxelas e Paris prossigam a ofensiva diplomática para retirar autoridade a posições que, além de controversas, ameaçam transformar mandatos técnicos em palanques políticos.
Em última instância, a crise exemplifica como pequenos gestos — um tweet, uma fala em público — podem provocar movimentos decisivos no grande tabuleiro da política mundial, exigindo de interlocutores experienciais a serenidade e a sutileza de um xeque bem calculado.





















