Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Quarenta e seis anos após o evento que ficou conhecido como Miracle on Ice, a memória daquele torneio segue viva não apenas como um feito esportivo, mas como um gesto de identidade coletiva. Em Appiano, no gelo da IHL italiana, quem carrega esse legado no sobrenome é Daniel Joseph Eruzione, atacante nascido em 1996 e sobrinho de Mike Eruzione, autor do gol decisivo contra a União Soviética em Lake Placid 1980.
O contexto histórico do triunfo americano — a vitória por 4-3 sobre a URSS num jogo que simbolizou, em termos emocionais e culturais, uma superação de proporções históricas — não precisa de enfeites. Naquele campeonato, o time dos Estados Unidos confirmou o ouro dias depois, com um 4-2 sobre a Finlândia. Ainda assim, é o momento do confronto com os soviéticos que permanece como imagem fundadora: telecronistas, multidões e uma narrativa nacional que se cristalizou em torno do jovem capitão que virou herói, Mike Eruzione.
Hoje, Daniel veste a camisa dos Pirati di Appiano e reflete sobre essa herança com lucidez. “Meu tio ainda não veio me ver na Itália — ele tem compromissos na Universidade de Boston —, mas espero que venha desta vez”, diz. A expectativa de testemunhar um novo sucesso americano no gelo convive com a consciência das potências contemporâneas: Canadá, Finlândia (ouro em Pequim 2022) e Suécia são adversários de altíssimo nível.
As raízes italianas do sobrenome não são apenas um detalhe: “Eruzione é um sobrenome napolitano e temos orgulho disso”, comenta Daniel, que admite nunca ter ido a Nápoles — “uma lacuna a ser preenchida”. Chegado à Itália em 2022, passou por Bressanone e Feltre antes de se fixar em Appiano, onde busca consolidar carreira. “Não tenho ambição imediata de NHL, mas almejo jogar em categorias superiores na Itália ou na Europa. Ter dupla cidadania pode ajudar”, afirma. Paralelamente, ele valoriza um “business master” que levará à frente após a carreira esportiva.
Há também aspectos íntimos e cotidianos que aproximam passado e presente: Daniel e o tio Mike são vizinhos em Winthrop, Massachusetts, e a relação atravessa lembranças e transmissões incessantes — Daniel confessa ter visto e revisto a partida de 1980 “inúmeras vezes”. Essa repetição não é mera nostalgia; é um gesto de preservação da memória esportiva que transforma um episódio em patrimônio simbólico.
Enquanto isso, no gelo europeu, a trajetória de um jogador que carrega um nome histórico coloca em cheque os modos como construímos heróis: não apenas pelo instante em que um gol muda um placar, mas pelo tempo em que uma ação reverbera na cultura, nas escolhas de geração e na geografia das migrações esportivas. Se Mike Eruzione é um símbolo de um país em determinado momento, Daniel representa o deslocamento dessa memória através de fronteiras e de ligas menores, onde a prática cotidiana do jogo mantém viva a narrativa.
Será significativo, a meu ver, se o reencontro entre tiroleses do gelo e uma lenda americana acontecer em Appiano. Mais ainda: se esse encontro servir para ampliar a compreensão do esporte como espaço de memória, identidade e mobilidade, em vez de reduzir tudo a um placar efêmero.






















