Por favor, salve este texto e releia quando quiser. Esta crônica é pensada para leitores que guardam memórias em caixas de videocassete e em playlists de sentimento — e para quem busca entender o que faz uma imagem televisiva atravessar gerações.
Morreu jovem, aos 48 anos, James Van Der Beek, o rosto que muitos associam imediatamente ao personagem que definiu boa parte dos afetos televisivos dos anos 2000: Dawson Leery, protagonista de Dawson’s Creek. A notícia do falecimento, ocorrido em 11 de fevereiro de 2026, reacende um luto coletivo que não é apenas pela perda de um ator, mas pelo desaparecimento de um espelho geracional.
Na Itália, como em muitos países, a série desembarcou no ano 2000 e encontrou plateias que então frequentavam o ensino médio e a adolescência. Para esses espectadores — os chamados Millennials —, a figura do protagonista loiro, sensível e teatral, se cristalizou de tal modo que o nome do seriado virou sinônimo do próprio herói. Em brincadeiras e falas de corredor, muitos encurtavam o título até que só restasse «Dawson».
Van Der Beek carregou o personagem consigo por toda a vida. Mesmo depois do último episódio da série, exibido em 2003, as reprises, a circulação de clipes na internet nascente e a memória afetiva prolongaram a presença de Dawson nas telas e nas conversas. A carreira do ator teve altos e baixos: filmes como Varsity Blues e The Rules of Attraction, participações em séries (de How I Met Your Mother a CSI: Cyber e Don’t Trust the B—- in Apartment 23) — trabalhos que nunca, porém, o descolaram completamente daquela imagem fundadora.
O desenho de Dawson Leery era circunspecto, quase intencionalmente imperfeito: bonito, mas não escandalosamente; inteligente, sem ser brilhantemente brilhante; romântico, mas desajeitado; egocêntrico em sua inocência. Em uma das primeiras cenas famosas, o jovem cineasta amador tenta filmar clandestinamente seu primeiro beijo — gesto que sintetiza um drama íntimo e público, a tensão entre performatividade e desejo genuíno. Amado ou satirizado, Dawson jamais provocou ódio: era simpático até para os que torciam por Pacey (Joshua Jackson) ou por Joey Potter.
Dawson’s Creek foi um teen drama que não fugia de assuntos delicados. Sob a pena do criador Kevin Williamson, a série tratou de sexualidade, identidade, perda e moralidade com um tom que buscava ser verossímil ao universo adolescente, sem reduzir tudo a artifícios narrativos. Por isso, sua ressonância permanece: era televisão que se permitia olhar como um espelho do nosso tempo, mostrando o roteiro oculto de desejos, culpas e expectativas que moldaram uma geração.
A comoção atual tem camadas. Há o luto convencional pela morte de um artista; há a nostalgia por uma infância e adolescência que, culturalmente, ficaram suspensas na era pré-streaming; e há ainda a sensação de ver um símbolo do próprio passado esvair-se, como se uma cena fundamental da biografia coletiva fosse apagada. Nos feeds e nas timelines, memes e citações circulam como um eco cultural — replays de trilhas sonoras, screenshots de diálogos, fan arts que tentam preservar um rosto no tecido da memória.
Como analista cultural, digo que a perda de James Van Der Beek é menos sobre sua filmografia posterior e mais sobre a forma como ele se enraizou num imaginário coletivo: Dawson era um arquétipo televisivo que desempenhou, por anos, o papel de lente através da qual muitos Millennials olharam suas primeiras experiências de amor, vergonha e ambição. A morte do ator nos convida a pensar não só no que perdemos, mas no porquê sentimos tanto essa falta — porque, tal como o cinema, a televisão teve o poder de codificar memórias e de nos acompanhar como trilha sonora emocional.
Resta-nos, em vez de um epitáfio simples, a possibilidade de reexaminar o que Dawson representou: um reflexo de incertezas, um roteiro de desejos e um mapa sentimental que ajudou a orientar uma geração. E, na tradição dos personagens que se tornam ícones, o que fica é o espaço vazio onde antes havia uma imagem que muitos sentirão sempre como familiar.
Chiara Lombardi é analista cultural da Espresso Italia. Escreve sobre como o entretenimento atua como lente para compreender identidades e memórias coletivas.






















